segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Lida por ti

Meus poemas que ninguém leu, nem você,
expressam o que sinto sem você saber.
Meu sentimento é mudo
E não sabe ler nem escrever.

O passado que você não viveu, mas esqueceu,
Não me permite uma chance.
Você não me conhece,
Nunca sentiu minha sinestesia,
E acha isso uma metáfora.

Meu desejo era que lesse
E se identificasse 
por meio dessas letras
Sem a lembrança do que não sabe.

Apenas a amo como um indiferente
Vendo suas fotos e mensagens
Que nunca são para mim.
Mas, se você não me esquecer,
Eu juro assim também o farei.
E não me maltrate se aqui se reconhecer,
Continuarei nas sombras onde sei viver.
Por fado ouço que não serei lido por ti.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Conto de um samba líquido


Começo pela véspera atemporal dessa história.
Samba. Sempre gostei de samba. É... Sempre? Bem, não é bem assim. Sempre é um tempo constante sem início nem fim. Esse tempo começa quando não lembramos o início. Tempo suspenso na recordação. O que importa é a certeza da ancestralidade desse gosto em mim. Agora, a título de recorte dentro da constante atualidade do tempo, essa influência desinfluente pode ser datada no final da década de 1980. Antes de sair para o trabalho, minha mãe deixava o rádio ligado na Rádio Tropical. SÓ TOCAVA SAMBA independente do subgênero. Mas um estilo me tocava mais: o tal do pagode chamado de “raiz”. Do menos rebuscado aos mais conceituados. E digo uma coisa: o samba mais comercial dessa época ainda é melhor do que os “populares” das décadas seguintes. Comecei a memorizar os nomes e os sambas de bambas antigos e atuais. E não cito nenhum nome, pois “malandro” não se compromete, só “mané” não se toca. Outro tipo de samba é o de enredo, o qual tem me apetecido menos por suas questões mercadológicas.
No Rio do qual sou posse, apreciamos escola de samba de coração como time de futebol. Pelo menos era a visão que eu, criança, tinha do mundo naquela época. Como num passe de mágica, me descobri Beija-Flor de Nilópolis. A pequena ave que baila estática no ar. Esse sentimento me ficou bastante sensível à pele a partir de 1989. Com um enredo sociocrítico, “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”, a escola Nilopolitana ficara em segundo lugar. Festejei muito esse enredo e os “Todo mundo nu” (1990) e “Araxá, lugar alto onde primeiro se avista o sol” (1999), dividido com “Chico da Mangueira”, também belo. Em 1998, foi a primeira vez que pisei o chão da Deusa da Passarela. Uma quarta-feira chuvosa. Pensava em me “esbaldar” de cerva! Pura ilusão. Tomei um balde de gelo (outro problema, “gelo” lembra cerveja). Bem, bebi nada além de chuva! Como a diretoria não contava com o título, não teve gelo pra galera. E eu estava duro que nem um coco, possuindo apenas o dinheiro da passagem de ida, contando com a sorte do “calote” na volta de ônibus. E o único líquido que absorvi foi chuva. Porém, o paraíso hospitaleiro da quadra superlotada foi maravilhoso.
Indo para o tempo cronológico dessa história.
Sexta-feira, noite abafada. Último dia da semana de viagens geográficas a serviço do ensino em torno da língua portuguesa. A semana inteira, desde segunda, aula aqui, aula ali, aula acolá, aula alhures. Imagine o cansaço, sensação de alívio e depois aquele chope gelado. Colégio Alfa, final de expediente. Intervalo anterior aos dois últimos tempos de aula na turma de Pré-vestibular. Literatura. Momento sagrado de breve descanso. Na sala dos docentes, repousava com cafezinho e biscoito o historiador Lázaro, que de Ramos nada tinha, era mais para Bonsucesso, ou melhor, Lázaro de Austin e adjacências baixadianas. Nesse momento de paz e esparramado no sofá, surgiu o convite para integrar uma parceria na disputa do samba enredo da escola Inocentes de Belford Roxo. Confesso que fiquei feliz, ansioso e intrigado. Lázaro já conhecia meu gosto, conhecimento e pesquisas sobre samba, mas não tinha essa canja para o de enredo. Como ele queria terminar a letra do samba, que teve sua primeira parte composta por Diamante, parceiro que conheceria no domingo, marcamos de beber depois da aula. Na saída, fomos para o Bistrô Brasil do Marcelo Negão, onde a especialidade era o cremoso chopp encantador de poesias.
No Bistrô Conexão Brasil, Lázaro me apresenta o professor Zé Totonho, integrante da parceria. Lá conversamos sobre as estratégias dos integrantes da parceria, dos valores a serem investidos, do dindim que a escola poderia pagar aos vencedores e, principalmente, na alegria da concorrência. “Água pra prover a vida” era o enredo. E, obviamente, numa conversa sobre samba, só chope para saciar a sede. No bar também estavam mais quatro amigos, os quais libertinamente convidei para beberem juntos e integrarem a parceria. Mas não aceitaram. Paulinho José estava duro e sairia nas cuícas da Portela; Hilário estava numa parceria na Vila Isabel; Bira da Vila caçava patrocínio para o cd “Canto da Baixada”; e Flavinho Neguinho tinha de se dedicar ao Casarti (Casa do Artista Independente). Beberam um chope conosco e saíram para sei lá no mundo.
Na quinta caldereta de chope, o calor noturno ainda era intenso, as gargantas sedentas, as canetas afiadas e os papéis, antes pálidos, agora rabiscados. Zé Totonho fala sobre o primeiro samba: “Pelo telefone” (1916), de Donga. Foi minha deixa, eu já tinha escutado Nelson Sargento e Monarco (bibliotecas vivas), em momentos diferentes, dizerem que a galera do Estácio já “batia” um “samba de partido alto” diferente do “Pelo telefone”, embora seja o primeiro do gênero a ganhar certidão de nascimento. Além disso, já tinha lido referências sobre o samba em obras literárias, como em Os Sertões, de Euclides da Cunha, e obras do renomado pesquisador Nei Lopes. Logo, minha bagagem de leitura era uma mala sem alça.
Na décima caldereta de Brahma bebida, o garçom perguntava: “Mais três Chopes?” E respondíamos dando ok, levantando a taça e cantando Orlando Silva: “Chopp da Brahma é o primeiro / Chopp da Brahma é o primeiro / De garrafa ou de barril”. E concordávamos que o de barril era melhor do que o de garrafa. Agora o assunto era mais humorístico independente da seriedade do mesmo. Nesse momento “poetílico”, já tínhamos escrito o restante da letra do samba.
Entretanto, lá pela décima sexta caldereta, e de um tempo fora do relógio, ocorre um caso inusitado, uma insanidade etílica, diria. Não foi o pedido de um exótico tira-gosto, mas uma declaração do Lázaro. Nessa hora, Dudu, sócio no Bistrô, já ria de orelha a orelha. Como o show no telão acabara, o garçom fora trocá-lo. Mas perceba o quilate da responsa! Era um dvd que eu tinha levado com músicas cantadas por Candeia, Aniceto do Império, Cartola, João Nogueira, Nelson Cavaquinho, Zé Keti, Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Monarco, Nei Lopes, Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Reinaldo, Dunga, Toninho Gerais, Camunguelo, Leci Brandão, Bira da Vila etc etc e tal. A última música tocada tinha sido do menestrel Luiz Carlos da Vila, cantando “O sonho não acabou” (A chama não se apagou nem se apagará / És luz de eterno fulgor, Candeia / O tempo que o samba viveu / O sonho não vai acabar / E ninguém irá esquecer Candeia). Beleza até então. O novo dvd já estava tocando. Não percebemos bem do que se tratava, a conversa estava animada. É nesse momento que Lázaro vira para gente e aponta o telão onde era exibido o show. “Isso é que é pagode de raiz!” Não decifrei bem o que tocava. Mas, curiosamente, eu e Zé olhamos para o telão. Era exibido um show do grupo Jeito Moleque. Era a deixa... ou a gota que faltava. “Dudu, a conta! Já bebemos demais por hoje! A poética já está comprometida!”. Rimos muito, e nosso amigo pediu desculpas pela possessão de espírito sem luz que o fez proferir tal afirmação doidivanas.
Domingo, nove dias depois, ansiedade no tato, caipirinha no paladar e Samba Social Clube na audição. Era o dia de conhecer a quadra da escola, os outros parceiros e os possíveis adversários. Era o início dos estratagemas e da letra campeã. As apresentações dos sambas concorrentes seriam a partir das 20h, marcamos às 19h, e eu cheguei às 18h30. O ponto de encontro seria o quiosque do Biricutico, que ficava em frente à quadra. Botei o endereço no GPS e pronto. “Aqui é o quiosque do seu Biricutico? Por favor, uma cerva bem gelada!” “Deixa que eu levo na mesa!” Sentei à mesa e esperei os comparsas. Havia pouca movimentação na rua e ao redor da quadra. Vi, no máximo, protestantes indo, provavelmente, para suas igrejas. A praça era de um ambiente mal iluminado no lusco-fusco fronteiriço do início da noite. Além dos transeuntes evangélicos, poucas pessoas eram circunvizinhas ao quiosque.
Enquanto aguardava os amigos, vi personalidades um tanto caricatas nos outros botecos próximos e na fila da bilheteria da escola de samba. Pensei comigo: Se a galera que veio curtir e torcer é assim, não sei que festa vou encontrar por aqui. No trailer ao lado da quadra, sentado numa mesa estava um pai de santo de cabeleira estilo Lionel Richie. Ele vestia-se todo de branco, apoiava-se em uma bengala e usava anéis prateados em todos os dedos. Ele andava devagar e com dificuldade dramática. Mas que raios esse senhor alquebrado de quase dois metros de altura veio fazer aqui? Poderia ser um bicheiro, senão fossem o anel de búzios, o colar de Ogum e as quatro mulheres que o acompanhavam. Senhoras de ojás coloridos na cabeça. Duas delas andavam com dificuldade de tão obesas. A outra que também me chamou atenção foi a mais magra delas, que, a olhos nu, deveria pesar uns 40 quilos sobre as muletas em que se debruçava. Não sei quem pesava mais: as muletas ou a senhora. E a quarta era a mais velha de colar marrom, uma vovó de guelê branco na cabeça, que, além de cobrir os também brancos cabelos, usava um pano da costa ora usado como echarpe. No Rato Pelado (estava escrito na propaganda em cima do bar), estavam já lotadas as mesas em questão de 15 minutos após minha chegada. E eram pessoas de porte físico bem robusto ou bem magras, mal encaradas, algumas barrigudas, mulheres de shortinhos apertados e curtos, gays, a maioria negra. E falavam alto, aliás, gritavam afetuosamente entre eles. E tomam engradados e engradados de cerveja. Sozinho e tímido, comecei a me sentir amuado, meio amedrontado, pois as pessoas não pareciam receptivas. E o calor? Putz! “Seu Biricutico, mais uma, por favor”. Enfim, 19h em ponto, chegou a parceria: Lázaro, Zé Totonho, Diamante, Alê Boladão e Figueiroa. Pelas alcunhas, só gente de bem. Os outros não puderam vir. Pedimos mais duas cervejas. Lázaro me apesenta aos demais e ensaiamos o samba. Afinados, entramos na quadra. Eu, o estranho no ninho da “pomba da paz”.
Adentramos a quadra. Havia um número ínfimo ao que se espera num dia de apresentação de sambas. Poucas mesas preenchidas. Empolgação zero. Poxa, já eram 20 horas. Enfim... um balde de gelo! Vamos beber e esperar. Lá pelas 21h a bateria iniciou os trabalhos. E eu só pensava que teria de levantar antes do galo cantar na segunda para ir lecionar. Confesso que não estava mais empolgado. As pessoas estavam apáticas, cabisbaixas, moribundas, sem água ou refrigerante ou cerveja (!!!) em suas mesas. Eu olhava para mesa daquele pai de santo e sua família sentados num tédio ancestral. Eu pensava: o que vim fazer nesse lugar? As pessoas deveriam ser torcedoras da Beija-flor, Grande Rio, Portela, Mangueira, GRES Quilombo ou Unidos da Ponte, menos da Inocentes. Só pode ser. Dominado pelo transe das conversas de meus amigos, não dei conta do quanto a quadra foi sendo tomada por um mundaréu de gente. Como não me recordava de ter visto fileiras cheias, achava que a quadra permaneceria às moscas. Contudo, uma transformação.
A bateria que rufava fervorosamente funcionou como os tambores que vão buscar quem mora longe. E foi contagiante ouvir o samba em homenagem a Leonel Brizola: “Canta cidade do amor / do coração Inocentes / pra saudar o rei do povo / faz a alegria dessa gente”. E as pessoas entraram em transe mediúnico. Começaram a sambar e cantar inebriadas como se fossem a própria pomba da paz, símbolo da escola. Uns davam puladinhos de bode, como diria Candeia, outros pareciam enceradeiras com suas pernas alucinadas. As passistas pareciam sininhos voando no chão de pirlimpimpim. Belas, sensuais e do samba! A inveja escorria pelas retinas por desejar ter as pernas elétricas de 220 volts dos passistas, embora eu verdadeiramente prefira um miudinho de velha guarda. Depois entoaram o samba em homenagem a Ossanhin, a divindade botânica detentora da cura advinda pelas folhas: “O meu coração é Inocentes / de Belford eu sou feliz / o corpo são conduz a mente / eu sigo em frente vou na força da raiz.” Se a cura não veio da floresta, ao menos veio pela samba. O pai de santo alquebrado, que andava com dificuldade e apoiado em uma bengala, sambava com vigor e maestria de um Delegado da vida. Mas como assim? O suor escorria-lhe do rosto com alegria e era absorvido pela toalhinha branca que descansava dependurada no ombro. E as suas filhas de santo. As duas senhoras gordas dançavam com a leveza e o brilho de plumas e paetês. A de muletas parecia uma porta-bandeira em mavioso glamour. E a vovozinha mocotona? Ela sambava e cantava como as antigas pastoras do tempo áureo dos ontológicos sambas. Onde estavam as pessoas "excêntricas" que me intimidaram no início? No mesmo lugar. Agora tudo me era familiar, eu era apaixonadamente um deles. Antes idiota à Dostoiésvki, depois sambista à  Paulo da Portela. O samba tem o poder de mudar pontos de vista, de suprimir o prefixo do preconceito, de desconstruir identidades cristalizadas, de permitir alguém trocar sua medula óssea cultural. O samba me favorece a olhar para mim mesmo a partir do outro, refletindo sobre os meus privilégios sociais.
As parcerias foram apresentadas, e os sambas começaram a ser entoados. Nossa música ficou por última. Nos dois meses consecutivos de concorrências, não havia samba mais cantado como o nosso. Nossa letra era forte e promissora. Ficamos entre os três finalistas, sendo o mais apoiado pelos funcionários da escola, bares vizinhos à quadra e os descompromissados com as três parcerias finalistas. Mas a verba que conseguíamos angariar não era suficiente para levar uma torcida maior à quadra. Qualidade latente, mas pecávamos na quantidade. Também não tínhamos o apoio da diretoria nem da presidência, que cantarolava a letra de uma das concorrentes. Nem queríamos apoio de uma direção que, em reuniões semanais, ridicularizava a produção poética dos compositores da escola como se, por morarem em uma localidade da Baixada Fluminense abandonada pelo poder público (que não investe em saúde, em segurança e em educação), não tivessem condições intelectuais. Pobres, pretos, favelados, putas, gays, macumbeiros? Querida diretoria, Cartola e Dona Ivone Lara, baluartes do samba, são exemplos de negros de origem humilde e moradores do morro, e isso não os impediu de grandes construções poéticas. As mãos das “minorias” não se ridicularizam, mas a inferiorização de suas estruturas é reforçada pelas mãos dos privilegiados que tudo levam, lembrando o pagode "mãos", de Carlos Senna e Almir Guineto (a versão com Mano Brown é linda!). Estruturas sociais privilegiadas (ainda que tenham nojinho) apropriam-se da “asquerosa” produção cultural do povo. Transformam-na em proveito próprio. Depois revendem-na ao povo para que o mesmo pague pelo “belo produto final”. Os pobres produzem, as estruturas de poder tomam, regularizam e vendem da forma mais conveniente de usufruo. O objetivo desse simulacro é manter os desfavoráveis no seu devido lugar social de dominação. Assim, elas se reproduzem vigorosas e se perpetuam no poder. Como num estratagema preponderante para vitória em tempos de guerra, os outros dois sambas foram fundidos. Logo, creio que ficamos em segundo lugar. O saldo foi positivo.
Porém, ah, porém... quando subimos o palco, uma forte sensação estranha tomou conta do meu espírito. Misto de medo, de choro contido, de nervosismo, de ansiedade, de paixão, de representatividade. E aquela multidão esperando, observando, inquisidores ou não, uns gritando, ovacionando, sambando. E o coro popular encorpando nosso refrão: “Água pra saciar a sede / Água pra prover a vida / A Inocentes hoje conta com você / vamos juntos defender / nosso planeta azul nessa avenida”. Foram muitos encontros, amizades construídas, esperanças e respeitos compartilhados. O anúncio do segundo lugar, o choro solto e frouxo. Mas a alegria do dever realizado, da brincadeira, do esforço desprendido, da amizade e dos amores abraçados na efusão de lágrimas, de suores e de cerveja. E haja água para saciar nossa sede de vida. Água não para purificar, lavar ou limpar no resgate de essência ou pureza, mas no sentido de renovação, de transformação, de ancestralidade.


quarta-feira, 10 de junho de 2015

QUEM É ELA QUE...


Quem é ela que me faz observar constantemente o meu único meio de comunicação imediato que me acorrenta numa caverna, deixando–me ver somente as sombras que escondem a verdade e a alegria. As sombras me fazem acreditar numa realidade falsa e limitam meu mundo limitado, fazendo com que eu perca a percepção dos sentidos, a noção do tempo e espaço causada pelo meu único meio de comunicação. Este anula minha possibilidade de conhecer através dos sentimentos, causando–me erroneamente a falsa sensação de ser mais humano. Essa é a realidade virtual que me junta a ela matematicamente.

Pergunto–me o que pode estar acontecendo. Estará ela ocupada fora ou dentro de sua morada. Familiares à sua espreita ensejando sua comunicação. Íntimos a comunicarem–se com ela. Sua consciência espera seu espírito se espreguiçar num momento tranquilo, de paz, amor ou cansaço para retomar a batalha. A consciência é forte, sua tutora não deseja mais esse laço, capricho seu ou dela. Mente para quem mais gosta, a quem concebeu seu corpo unido pelo seu espírito e mente. Por isso o corpo deve explicações; a mente diz que é o certo, e o espírito sabe o que realmente é correto.

Mas quem é ela que tudo toca e às vistas de outros vira ouro. Será que recebeu o dom dado ao rei Midas? Não! As coisas não se tornam ouro porque ela as tocou. Somente para as pessoas que a observam.

Mas quem é ela que induz os outros quererem o obtido e conquista. A ela essas coisas não passam apenas de mero acaso do seu esforço. Que poder tem de atrair o desejo das pessoas para suas coisas.

Quem é ela que nenhum irmão quis adotá–la. Nenhum irmão puxou–lhe o cabelo, arrancou a cabeça de sua boneca. Não brigou na rua para defender um fratello. Ao reencarnar voltou como morgada. Os pais de seu pai não tomaram conta dela à noite, quando seus genitores saíram. Os pais de sua mãe não a paparicaram, quando os chamou de avós. Não comeu do bolo da sua vovó no Domingo de Páscoa. Seu vovô não a chamou para almoçar no momento que estava brincando na rua. No Natal, sua família – avós, tios, primos e pais – não se abraçou nem ceou junta.

Quem é ela que é tão simples, ato humilde. Desprovida de tantos sentimentos afetivos. Não teve o conforto do seio familiar. É feliz, mas não é completa. Tantas pessoas têm o que almeja e inveja, mas o valor que ela conhece não é dado. Irmãos que brigam por tudo, e ela, ali, querendo um para compreender e amar. “- Como Deus foi injusto comigo”, ela diz. Tem apenas o que pode conquistar, que acaba com pouco valor julgado por ela mesmo, e eu sou algo conquistado. Mas as pessoas invejam o que ela pode conquistar. É o que elas almejam ter. São íntimas, são próximas. Nem todo sorriso e abraço são sinceros. Inconscientemente, as pessoas podem desejar o fracasso; não o mal de outras.

Quem é ela que deseja acariciar mais as pessoas postas por Deus em seu caminho do que ser acariciada por elas. Que almeja amar para ser amada do que ter poder para ser bajulada. Que ama e dá valor ao que não tem por ser consciente disto. Suas vitórias são invejadas por muitos. Um pouco de sofrimento seu ajuda a aliviar a inveja de outros. Mas que essas pessoas nada consigam contra ela. Que se tornem o eco de suas palavras.

Mesmo sabendo disso tudo, quem é ela que se demonstra outra a cada dia que a vejo. Essa mulher nada faz sem que a graça a acompanhe.


(Primeiros Momentos, 2001)

QUEM NÃO ESTÁ COMIGO, ESTÁ CONTRA MIM?


“E há duas religiões? disse ele. Temos,
acredito, a religião de todo mundo;
adoramos dia e noite a Deus.”
(Cândido ou o Otimismo, de VOLTAIRE).

Al-ilah, Buda, Olódúmarè, Jáh, Jeová etc. são todos apenas um.
Mesmo que, às vezes, culturalmente heterogêneos.
Como o vinho passa para a água, o plural passa para o singular.
O termo universal para designar o Homogêneo é Deus.

A cultura hegemônica desta época, enfim, contenta-se e apazigua:
"... e todos sabemos disso, então, por que não nos chamarmos de irmãos?
Ainda bem que chegamos a esta conclusão, já que nossa clara cultura está na concorrência há mais tempo... por que não? Com isso, designaremos a todos como tementes ao nosso Deus.
Se tivéssemos dois copos com água (um com líquido puro e cristalino, e o outro com líquido turvo e salobroso) e oferecêssemos a água escura para vocês; se não tivessem escolha, beberiam dela pela sede?
Mas se deixássemos escolher, escolheriam a água limpa?
Caso fosse sim a esta última, o livre arbítrio acarretaria em desconfiança.
Agora, se tivéssemos um copo com água de origem desconhecida, para lhes oferecer, e vocês um copo com água conhecida, se nos apoderássemos deste copo, impondo-os a beberem do nosso, beberiam se estivessem com sede, ou abster-se-iam e morreriam da mesma?
Por que morrer, se seríamos tão justos não os deixando sem água?
Abdicariam da caridade de um bom samaritano, um temente a Deus.
Neófitos, fiquem tranquilos, viverão até morrer! ..."

Deus é único e singular, varia conforme as línguas.
Em todas as culturas são designados nomes para o Arquiteto Universal.
Numa religião não pode ser imposto o aprendizado;
permuta eclética tem de ser mútua.
Quando uma cultura aprender a respeitar a outra,
sem querer ser a melhor, não haverá mais desavenças.
O objetivo de cada uma é inalterável, o amor a Deus e a sua criação.
Pois, decerto ele diz... o crime... da nação: Discriminação!

(Primeiros Momentos, 2001)


ANTÔNIMOS E SINÔNIMOS

DIA,
do que adianta um lindo de sol, 
no carnaval um céu de brigadeiro,
azul repleto de toda sua simbologia auto-estimativa,
Se... em meu quarto há tempestades
Com trovões e relâmpagos
que me lembrariam uma guerra mundial,
caso possuísse mais algumas décadas nas costas;
Se... em mim há nuvens chumbadas e blindadas;
Se... estou
TREVAS.

MORRER

quero pois
É transmudar
É transladar essa condição bipolar
Esse ciclo vaporífero
De escuridão a luz
De melancolia
a LIBERDADE.

É UMA FIGURA


“Feliz não é quem cedo levanta, mas
quem cedo bebendo, o mal espanta.”
(Gargantua – RABELAIS)

Amigo, sua história é a luz da verdade.
Domingo, foi à festa com maldade.
Comprou convite? Comprou não.
O convite é necessário comprá-lo.
A você não lhe agrada tais comentários.
Penetra, não tem medo de ser.
Na grande casa, não podem lá descobrir todos.
A festa é em frente ao braço de mar.
Em uma dança mansa que não cansa,
Comeu mais de dois pratos e morreu.
Deu o último suspiro, caiu para trás.
Acontece que o meu amigo mudou de residência para outro mundo.
Tudo se tornou silêncio, tudo se tornou calma, mudez.
Ó, Deus, guarde a salvo o heroico e altivo beberrão!
Bebeu nada! Esta só frase em si resume tudo.
Está morrendo de frio, ali, no terno de areia que vestiu.
Abaixo, via a terra, base sem nitidez.
Acima, via o céu, redemoinho incessante.
Era um fantasma, que o “Senhor” com sua suave e doce voz a ele falou:
- Levante-se da areia e vamos.
E ele:
- Perrr... doa meusss pecados e leva-me para a tua morada, hic!, Sinhô!
E o “Senhor” disse:
- Pinguço sem teto, que bebe a consciência, a sua casa carregar-lhe não vou! Limpe o vômito do seu corpo, desce desse descente andor e não me chame de Senhor
 .

(Primeiros Momentos, 2001)


* ao amigo Márcio Hilário.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

CRÔNICA DA GALHOFA: FRANGO, PIPOCA E FAROFA

 Acredito que realidade deve ser a cena que ocorre todos os dias aos nossos olhos. Penso que realidade seja a “naturalidade” do “transeunte” que observamos cotidianamente. Sendo assim, o real é o que conhecemos porque é a rotina da retina. A escola é um dado real. Saúde, Educação e Segurança também são dados da nossa realidade. O péssimo funcionamento dessas três instâncias, o descaso dos políticos e a corrupção também são dados da nossa realidade. São cotidianos; porém, inaceitáveis. São sons absurdamente indesejados aos ouvidos. Roubos, assassinatos, estupros, tráfico, corrupções são fatos dos poros. O suor também é normal. Tudo isso acontece até quando estamos dormindo de olhos fechados, mas de ouvidos abertos. O suor não cessa seu ofício nem nos dias mais frios.

Se algo só existe, se o admitirmos como real, então deveríamos aceitar essas existências para podermos combatê-las. O absurdo precisa ser aceito como audível para voltar, talvez, a ser silêncio. Muitos indivíduos sentem prazer em incitar ações cruéis que, às minhas percepções humanas, são anormais e nada naturais ao meu cotidiano mental. Contudo, real e virtualmente, essa anormalidade é manchete corriqueira nos diversos veículos como bancas e bocas: “Mata mesmo. Porrada! Tira sangue”. “Esse menor tem que ir pra cadeia porque matou um senhor de família na Lagoa”. “E os menores mortos pela polícia, na Ilha? Ah, deveriam ser bandidos também”. “Repercussão midiática de ciclista assassinado depende de sua posição socioeconômica”. “Na cadeia, mete todo o cabo de vassoura no ânus desse estuprador!”. “Olha lá, levou um tirambaço de douze na fuça! Compartilha no facebook. Manda o vídeo para o meu watshapp”. “Foi estuprada? Também, olha a roupa dela. Dava até para ver o útero. Bem feito. Ela pediu”. “Esse muleque já tem jeitinho estranho. Vai ser viado, quer ver?”. “Tem que voltar a ditadura! Quem gosta de osso é cachorro”. “Sim à intervenção milita? Mas na favela já ocorre”. “Dane-se; favela é criadouro de bandido pobre e preto”. “Aids? É doença de viado. Já viu um hétero com AIDS? Detesto viado e travesti. Por mim tudo tem que morrer”. “E preto: quem quer ser preto? Mulher preta é pra comer. Os pretos são racistas com eles mesmos”. “Índio usando computador? Onde fomos parar?”. “Sem-terra é tudo vagabundo”. “Pobre é engraçado e confuso. Diz que tem nada. Quando dá uma enchente, diz que perdeu tudo”. “Deveria existir uma lei para prender esses macumbeiros, adoradores de satanás. Tá amarrado!”. “E esses crentes? Abitolados, ex-tudo e enganados pelo pastor salafrário”.

Falta de respeito? Falta de compaixão à diferença? Anormalidades? Essa é a normalidade de nossa sociedade em que indivíduos “moralistas”, ainda temendo abrir a própria boca para soltar seus demônios, apóiam-se em representantes que abrem a caixa de brinquedos sádicos de nosferatu. Não falo em Pandora, pois, coitada, os seres humanos causam o pior. Ter medo de alma penada e de assombração ou de gente viva? Outra coisa: por que sempre espírito padecendo em penitência ou causando terror aos vivos? O mundo dos viventes é melhor do que o destino dos morrentes? Os espaços fronteiriços são mais desconhecidos do que o outro lado da estrutura binária (mundo dos vivos e mundo dos mortos). Os viventes, ainda que não compreendam nem o seu lado, julgam sabiamente o lado dos mortos.

Foi assistindo a uma comunicação sobre Literaturas Fantásticas que comecei a refletir sobre “realidade”. Passei a pensá-la representada pelos acontecimentos prosaicos do dia a dia. Assassinatos, preconceitos, discriminações, violências, corrupções, sexismo, voyeurismo, inveja, cobiça, estupro, guerra. Um mundo binário, purista sem misturas e maniqueísta: se não for do lado B, é a favor do A na luta contra aquele primeiro. Se não for coxinha, é asinha (Mas ambos não são membros de uma mesma ave?). Vivemos num mundo que nega abertamente os sorrateiros e imperceptíveis (???) diálogos que ocorrem entre os lados. É dessa forma que somos normais e reais todos os dias. Somos idiotas ou hipócritas. Melhor, somos um neologismo composto por aglutinação. A sociabilidade de nossa humanidade habita nessas crueldades. Ou, logo, o meu julgamento encontra-se errado. Mas quem sou eu para julgar? Apenas mais um sadomasoquista a admirar a clava de poder às mãos de nem sei qual ser virtual.

Mas eu quero seguir a linha da ruptura, para depois continuar. E quando algum acontecimento rompe com essa normalidade de que falávamos? Sobrenatural? Subreal? Suprarreal? Fantástico? Maravilhoso? Animísticio? Não, apenas temos essa tal realidade de fatos do cotidiano. O real é o dia a dia. Real é o que ocorre com certa frequência. É então que percebemos as intenções que se encontram por trás dos acontecimentos mais prosaicos possíveis. Vivemos no palco da pantomima da galhofa. Concórdia ou discórdia. Vamos à cena que foi rascunhada para o meu personagem nessa trama do cotidiano.

À noite de uma terça-feira dessas, por volta das 19h22, estava na avenida Automóvel Clube. Pensava nos minutos restantes para o findar do dia fatídico na epopeia de retorno à minha Ítaca. Estacionar a nau no pequeno quintal, desembarcar em casa, a gruta do Polifemo. Enfim, faltando uma curva para adentrar a rua de minha casa e estacionar na garagem... Lá estava ele, o gigante Adamastor! Mas eu não sou Vasco da Gama! Aliás, sou um simples flamenguista às asas de um Beija-Flor! De alma e corpo exauridos, depois de um dia quente e de muito engarrafamento, avisto o caminhão do meu vizinho, pela quarta vez (PELA QUARTA VEZ!!!!!) estacionado à passagem em direção às Índias. Eu louco para dormir nos braços da deusa Vênus. E Adamastor plantado ao portão da entrada de minha casa. Só a poesia para transgredir, embelezar e tornar leve a realidade..

Isso é normal? É natural? A insistência na ocorrência é real. Das três ultimas, eu apenas havia tirado fotos, para registrar o caso do vizinho impertinente. Vai que o caso acabasse em delegacia... Não fui à sua casa, não o procurei, ele nem mora na minha rua. Somos adultos o suficiente para entendermos as nossas atitudes equivocadas. Aliás, por que adultos? Há muita responsabilidade em ser criança. Muitos lugares e amigos para criar. Muita luta para manter o encantamento vivo, alimentando o mundo. Entretanto, quase todas elas sucumbem a essa missão tão épica na transição com o mundo adulto.

Dessa vez, o meu estimado vizinho havia estacionado seu caminhão ocupando metade da entrada da garagem. Parei o carro. Desliguei o carro. Fiquei pensando no carro. Saí do carro. Fechei o carro. Dentes trincados. Bruxismo. Então me transformei! Incorporei o estresse gerado nos engarrafamentos do dia eternamente quente (engarrafamento às 5h15, indo para o trabalho; engarrafamento desde as 17h50, voltando para casa). Dizer que este texto não é coeso é fácil. Difícil é encenar (ou escrever) meu papel à flor da pele!

Ações repetitivas sem nenhuma razão. Abri o portão e entrei. Voltei para rua. De novo, entrei no quintal. Voltei para rua. Olhei em volta. Havia umas vizinhas no alto da rua. Claro, fofoqueiras. O alerta mental se acendeu. Vou estacionar assim mesmo! Voltei para o carro, liguei, dei ré e fui com tudo para a garagem. De forma imaginativa para apenas uma criança, inclinei o carro para o lado esquerdo, fazendo-o ficar sobre as duas rodas desse lado. Adentrei a garagem a 80! E olha que não tinha bebido nenhuma! Olha, eu não sei como estacionei o “batemóvel”; logo, prefiro o lado forte da magia. Depois de estacionar, voltei para rua. Olhei as fofoqueiras. Adentrei minha casa bufando, espumando, tão cão raivoso que nem enxerguei meu cachorro que, feliz com minha chegada, queria brincar comigo. Passei direto por ele que pulava em minha perna, a qual não o sentia. Estavam em casa minha filha, minha mãe e meu avô. Os três estavam em frenética atividade iniciática de comilança. Meu avô se preparava para comer uma farofa amarela da yoki. Minha filha tinha acabado de fazer pipoca de micro-ondas, coincidentemente, da yoki. Minha mãe estava com asas de galinha a pôr no óleo para fritar. Foi vendo essa orgia gastronômica que meu cérebro, maquiavelicamente, agiu, sem eu pensar racionalmente. Peguei a farofa do meu avô, que ficara gritando “não, minha farofa, minha farofa!!!”. Minha filha tentou esconder a pipoca, mas peguei na mão grande: “Não, pai! Tá doido?”. Minha mãe, a única afônica, nada entendeu, apenas deixou que eu pegasse três asas cruas. Juntei os três elementos da poção mágica e fui para rua. Claro que meu avô e minha sobrinha correram atrás de mim, para resgatarem seus petiscos. Apenas minha mãe me seguiu curiosa. Então, na rua, comecei a jogar asas de galinha, a farofa amarela e a pipoca sobre o caminhão. Rodei o caminhão fazendo isso. Quando terminei, as fofoqueiras estavam estateladas. Meu avô, minha mãe e minha filha, testemunhando tudo, apenas esperaram voltar para dentro de nosso quintal para gargalharem horrores. Riam alto da galhofa da discórdia. Pronto! Prato cheio! Frango, pipoca, farofa e gargalhadas. Só faltaram o charuto e o marafo!

Em poucos minutos, ouvíamos os gritos na rua. “Meu deus, chama Adamastor!!! Manda ele tirar o caminhão da porta do vizinho! Ele botou um feitiço. Ele tá atazanado! Tá amarrado! Meu deus, manda logo!” Confesso que fiquei muito nervoso. Não refleti sobre a minha atitude. Agi normalmente? Fui real? Fui natural? E o meu interlocutor... como foi sua leitura? Não me atentei aos percalços, às sanções. Sou franzino e fraco. E, como sabemos, Adamastor é um gigante. Todavia, a energia do redemoinho esteve ao meu lado. Só sei que horas depois o caminhão não estava mais, respeitosamente, estacionado em frente à garagem de minha casa. Salve a energia que fala todos os idiomas!

Como às 22h ainda é terça, vou beber uma. E, simulacro por simulacro, me deixa beber onde eu quiser. Por isso, vou às asas da imaginação para o bar do Jorginho. Lá, como sou amigo do rei, ninguém sentará na minha cadeira, impedindo-me de relaxar nesse estabelecimento. Estando à mesa, antes do primeiro gole, colocarei uma chapinha de garrafa no pé desta, para que me deixe equilibrado nesse final de grande hora que se rende à chegada da próxima. Nada melhor que um dia após o outro. O mal ou bem sobrevivem maniqueistamente ao olhar do oportunista. O poder é simbólico e está nas mãos que não são as minhas.

Só adianto que, uma semana após o causo, num dia qualquer outro, quando fui ao barbeiro de meu bairro, uma criança, que estava junto à mãe, soltou a seguinte frase: “Mãe, olha o bruxo atazanado!” Enquanto isso, lá em casa, minha filha, a quem apelidei de “menina de porcelana”, me chama de “Oscar Diggs, o mágico de Oz”. É... a dramaturgia da loucura furiosa trouxe a normalidade da paz e da harmonia reais ao nosso povoado. Graças a Deus, até hoje não encontrei mais nenhum carro estacionado à entrada de minha garagem. A consciência humana é mais! A poesia é mais! E que as bruxas expulsas de Oz não retornem tão cedo.