segunda-feira, 24 de setembro de 2012

RITUAIS

Tudo na vida é feito de rituais.
Os rituais são muito simples e quase imperceptíveis.
Eles nos passam de uma etapa para outra;
se uma etapa não for concretizada, as seguintes não terão efeito.
Os rituais são usados no cotidiano de qualquer um.
São, na realidade, nossos hábitos.
Trazem muito prazer, concentração e liberdade.
Reequilibram o psíquico, o material e o espiritual.
Não são prisões, regras e princípios.

O amor também é feito de rituais:
o de um ser humano pelo outro.
O beijo de agradecimento após um elogio,
o obrigado após um favor ou uma cordialidade.
Tudo isso numa sequência gradativa:
desde a hora de marcar o encontro
até a última despedida, após o amor.
Na realidade é uma gradação instável,
como o da cobra que luta para morder sua própria cauda
e, depois que consegue, solta-a para recomeçar tudo de novo.

A prática dos rituais é erótica.
Não o erótico ligado somente ao prazer sexual,
mas também ligado à força pela vida.
Nela os planos do afeto não são uniformes.

Quem não faz um ritual de luto, individual,
fica deprimido, preso, tendo algo vivo que já morreu.
A falta de noção da morte causa a melancolia permanente.
O choro é o ritual de galardão ao que desce à mansão de Hades, que morre.

A morte é o fim da vida,
perda de uma vida, nossa,
e sem a noção de perda não há liberdade.
Então, sinto que estou preso à minha vida.

(Primeiros Momentos, 2001)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

SOL... VIDA



Venhas ver o Sol.
Ele é belo em todas as formas.
Não cansa de iluminar
Teu rosto, tua casa, tua vida.
Ele é vermelho? Amarelo?
Não importa a cor,
Seu brilho traz vida,
Vida que desperta outras vidas.
Não é egoísta, é fraterno,
Faz escala com a Lua,
E não sente inveja da irmã romântica...

(Primeiros Momentos, 2001)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

HUMANO... HUMANIDADE

Espécie rara,
Surpreendente, cruel...

Tuas atitudes genuínas
e vis
marginalizam-te.
Humaniza-te!

Humano... Humanidade
À procura do tudo.
Tão completo, mas só nada fazes.

És tão pequeno
diante de ti mesmo,
porém grandioso
em tuas belezas
imaginárias e reticências.

Cresce, Humano... Humanidade.
Tenhas a pureza das águas,
que retrata o fundo de um lago.

Oh! Humano... Humanidade!
Espécie rara, surpreendente, gente.

(Primeiros Momentos, 2001)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

SABEMOS QUEM SOMOS

A maldição, infelizmente, é uma benção
na boca de quem ama a ignorância,
porque não tem palavra, tem arrogância,
para dizer o que tem em mente, em vão.

O homem, que não tem nada a perder,
é a mais perigosa, deste mundo, criação.
Em qualquer sociedade, dez desses precisos não são
para a transformação, para o mundo padecer.

A prisão de nossa mente é predominante,
mas procuramos não ter medo da cultura dominante.
O que ela fará conosco? O quê?
Que já não tenha feito. O quê?

Ensina que os negros viviam em cavernas,
que se balançavam em cima das árvores.
Que os índios eram selvagens aborígines,
enquanto os brancos eram, dos cantos da Terra, patriarcas.

O índio não era selvagem em sua própria concepção.
Os negros nunca aquilo fizeram.
Os negros uma raça de reis eram.
Enquanto os "brancos" rastejavam na Europa; quem são?

Quase tudo que você sabe hoje a dominante ensinou.
Adorar um Jesus loiro e de pele clara, aceitou.
Mas Jesus era judeu, pés de bronze tinha
e cabelos como a pele de um carneiro mantinha.

Se a dominante joga–nos o osso,
então devemos esquecer 500 anos de opressão?
Deixa–nos cantar, sorrir, dançar, sendo oneroso.
Depois deixa um marginal à sociedade
adentrar a Universidade por uma seleção.
Mas isto não anula o maior crime da história.

Ver com os olhos livres: a realidade.
Ler por trás das palavras: a iniquidade.
Conquistar dela o que não temos: equidade.
Para saber o significado real da palavra: integridade.

Nenhum de nós é Deus para dizer
quem é bom ou mau no seu viver,
impondo uma verdade a crer,
e punindo a quem seu mandamento não obedecer.


(Primeiros Momentos, 2001)

IMAGEM VIRTUAL


“No amor basta uma noite para
fazer de um homem um Deus.”
PROPÉRCIO.

Longe de ti, persuasivo, sou nada.
Tudo me inquieta sem razão aparente.
Absorto, logro tua imagem alucinada,
Que calada me rebusca subitamente.

Ao meu alcance, sem dizer nada, abraça–me.
A calefação deixa-me delirado.
Da minha consciência, inebriado, perco–me.
Em meu perjúrio, deleito–me transviado.

Escuto palavras para cessar.
Em desatino, encaro o receio.
Meu corpo desacata as ordens para parar.

Num ímpeto, obedeço minha mente.
Estatelando–me contra o nada, digo:
- Peguei–me pensando em ti, novamente!

(Primeiros Momentos, 2001)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

É...

É por ter visto a luz dos teus olhos,
Luz que não sei definir,
Porque luz só...
Luz vinda de ti,
Chama, relâmpago, luar...

É por ter contemplado o teu ser,
No teu movimento, no teu esquema,
Na tua parábola...

É por ter sentido o teu imã,
Tua essência,
Tua vibração...

É por ter ouvido a tua voz,
Teu rumor, teu som,
Teu eco...

É por ter captado tua anunciação,
Teu signo, teu enigma,
Teu dogma...

É por ter parado ao teu aceno,
E recebido de tuas mãos... a profecia...

É por isso,
Só por isto,
Sinto-me atraído.
E o meu coração
Oculta o encantamento.
04/98

(Primeiros Momentos, 2001)