domingo, 10 de março de 2013

MAIS UMA CRÔNICA AO CRUZAR O UMBRAL ETÍLICO


Acho que hoje meu psicológico acordou predisposto para um bom vinho. Feito! Embora manhã, o calor do Rio de Janeiro faz com que, à varanda de onde momentaneamente resido (ou me escondo – isso pois preciso às vezes me reclusar... do outro, de mim... sei lá... sou meio doido). Calor, quase 11h, RJ e vinho? Devo ser louco de pedra mesmo... por um mal-estar físico, ainda que eu alterne o vinho com uma bicada numa taça de água gelada. Está tão quente que minha camisa já transpira, molhando à altura de meu abdômen. Na boa, véi, se minha roupa já sua, nem falo do meu corpo... no entanto, amalucadamente bebo agora um chileno. Sacio a sede do psicológico. Não sou bom bebedor, mas gosto. Casillero del Diablo (carmenere): elixir poético. Ao fundo, algo nada comum aos meus ouvidos... samba. Como sou previsível!
Sem querer querendo, ao bel-prazer de aproveitar a piada-notícia da semana do jornal Meia Hora sobre a cobertura da morte do presidente da Venezuela, o sem teto da vila do senhor Barriga, ouvi uma magnífica música do Chico Buarque: “Meu querido diário”. Linda! Ao ouvi-la, me recordei das palavras religiosas de meus avós quando diziam que certos nomes não podiam ser pronunciados, pois traziam tudo de ruim para nossas vidas. É nesse ponto que penso na nossa excremência, o racista e homofóbico presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Não nomeio, então não existe... tenho medo. Penso em ter religião e não mais ser apenas religioso.
Hoje, no tempo sagrado, ao delírio de meu inconsciente, topei com meu amigo Morfeu. “Bom dia! Ande na luz e com seu Deus, não viva sozinho... sem mim, seu amante.” “Meu amigo, meus sonhos me agridem sempre jogando todos os dias na cara várias verdades; são preconceituosos! Me julgam como se soubessem das minhas lutas diárias, malditos sonhos.”
Como em “Meu querido diário”, também penso em ter religião, de fazer sacrifícios de mim mesmo em prol dos sonhos que me humilham. Mas, Chico, como posso amar uma mulher sem orifício? Esse meu hoje de “hoje, afinal, conheci o amor” está muito distante. Essa iluminação humana está longe de ser alcançada por mim. Não sei se um dia aprenderei o que é o amor. Nem os mais populares sabem o que é o amor: “Se perguntar o que é o amor pra mim / Não sei responder / Não sei explicar / Mas sei que o amor nasceu dentro de mim”. Porra, Arlindo, como sabe? Fanáticos religiosos pelo amor! Não quero me render à ignorância.
Enquanto eu estava nos braços de Morfeu, vi uma amazona. Uma ex-caçadora belíssima. Todavia, pelas vestes, agora era uma aristocrata. Eu a reconheci. Estava mais magra e com tez mais alva como se estivesse passado por um período no Ocidente... sem a força da luz do sol. Estava esbelta! Linda! Intocável! Não parecia que nem era a mesma, era ela-outra. Um dia onírico de muito sol, tive o sentimento de posse por ela. Ela também.
Agora ao seu lado, fiquei alegre, fique atordoado, fiquei incoerente. Ainda que o desprezo por mim se acentuasse, tudo passava como um dito lírico e fabuloso e apaixonante e ambrosia. Suas palavras abraçavam meu interior, seu corpo sonoriza “eu te quero”. Como a revejo, me vêm à mente o botão desabrochando em câmera lenta do vídeo, a borboleta que antes era lagarta, o gelo que antes era água, a beleza contida na vida, a música e a dança que põem em transe, os sonhos divinatórios, os períodos da lua. Sinto a vida e a morte.
Não há melhor ocasião para encontrar os antepassados. Na memorial casa de Morfeu, eles permanecem vivos porque mantemo-nos ativos em culto. Lembrar é tirar do estado de letargia aquilo a que daremos continuação no ciclo da vida-morte ou morte-vida. Para recordarmos, precisamos alimentar a memória. Gostaria muito de me alimentar meus olhos com a presença física dela. Garanto que prefiro o amor imperfeito... aquele que me permite conhecer como de fato ela é... suas manias, gostos... queria todos os dias negociar e renegociar os meus defeitos com os dela para que tentássemos manter vivo o amor na eterna-finita chama da diversidade humana. É esse desafio que desejo da vida.
Entretanto... essa aventura é a dois... não posso desbravar essa senda sozinho. Gostaria que ela se aventurasse comigo o desafio. Ela me pede para não esquecê-la, pois, assim, não me exilará de sua mente. Mente? Já leu algum romance piegas em que alguém esqueceu um amor verdadeiro? Eu não. Mas o que é "esquecer"? Esquecer é deixar fugir da memória? Se diz que não me esquecerá caso eu não a esqueça... então está fadada a me amar preso na memória, pois assim a desejo atada em mim. Se não posso tê-la em corpo, que eu tenha em mente. EU NÃO A ESQUEÇO. Só lamento a vida não parar... só lamento ter de viver procurando pelo amor (por ela) em outra mulher que não a seja... lamento que procure em outro homem o amor que sente por mim. Envelheço a cada dia que passo... e meus sentimentos também... não terei a jovialidade que ainda me resta se um dia me conceder amor de corpo. Tudo isso ela não disse, pois nem falou comigo, mas é essa intenção que quero entender.
Morfeu, por quê? Quando reencontramos alguém que um dia foi entre aspas nosso, parece que temos o poder de atrair e seduzir a mesma pessoa e ela de cair em nossas artimanhas... pensamos que as águas do rio que se dirigem para o mar são sempre as mesmas. Somente um ser humano mais humano possível pensa isso! Frustrações e machucados.
Deus me livre das águas que não movem mais moinhos! Eu creio na reencarnação das águas. Eu creio no ciclo das águas que evaporam, tornam-se chuva e, assim, têm nova vida. Mesmo assim são outras! Ao me despedir de Morfeu, seu beijo me conscientizou que devo evaporar para me tornar água do céu, água revivificada. Se tiver corpo e mente renovados, a tristeza não estará mais morando em mim. Como canta o sucedâneo consanguíneo de João Nogueira, a tristeza vai embora de minha alma para eu cantar novamente com alegria. Quem sabe serei o eu-outro que ela-outra procura...
Véi, desculpa dizer isso assim... já estou embriagado pela vinho, pela sonolência etílica, emoção, choro de bêbedo... encharcado pelo suor da roupa que teima em metamorfosear-se em líquido... Porra, Chico, sou rude e humano... eu quero amar a mulher de orifício, aliás... com.
Iniciei as minhas verdades com um propósito consciente, porém essas minhas divagações desconexas foram mais fortes. Quem sabe Drummond, em sua face poética, diagnosticasse-me comovido como diabo por conta do Casillero. Termino essa garrafa, taça, gota, autopsicografia pessoana... senão tombo antes de terminar a escrita... sendo mais etanol do que h2o.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

UM EU PÓS-MODERNO


Eu...
Eu?
Eu?
Eu, onde estás?
Podes me ouvir?
Eu, ascolta-me, por favor!
Não me negues-te.
Procuro, pois é importante para mim.
Pensa o que penso!
Aceita, une-te-me!
Não sumas em mim!
Sejamos juntos nesta viagem,
tua perdição, por mim.
Por favor, sei que sou frágil e tu, uma rocha.
Eu, está comigo nesta empreitada.
Sua tez é pura como nuvem úmida.
Eu, vê-te-me!
Se não sou sua essência, é a minha!
Por favor, sinto vida em mim, fogo sólido.
Há quanto tempo não sentia...
Não te escondas, não faças isso comigo.
Somos apenas um no espaço sem limites.
sua pele me roça, Eu.
Sente comigo.
Bem sei que é um pedido
que não deve ser realizado,
se quero o meu bem.
Tu, Eu, sempre me defendeste e guardaste,
desde que amadureceras e deixaste de brincar
e de te enganares comigo em minhas infantices.
Mas, Eu, vê como é divina sua arcádia.
Eu aspiro a sua companhia, sua voz
a levar-me pelo ar, a negar-me um beijo.
Vê... um beijo para quem deseja hipérboles.
Me nega na multidão.
E nas salas é minha!
Minha! Eu juro a ti, Eu.
É minha!
Esquecemos de tudo e de todos.
É maravilhosa!
É infindo.
Me deseja vorazmente.
Deixo levar-me assim...
Mas não a amo.
Até que anseio da borda de meu sentimento
que transborda.
Mas tu, Eu, não estás comigo
e não deixas me amá-la por inteira.
Tudo bem, Eu!
Por agora, deixar-te-ei jazendo.
Sei que te escondes de mim pelo bem.
Provavelmente, deves imaginar sua intenção.
Foste preparado para isto.
Mas, se conhecesses como a conheço,
te perderias como estou perdido.
Se sentisses o que sinto, quando estou perto,
seu caloroso espírito,
Amarias sem causar-me ciúme.
Se tocasses seu belo corpo como toquei,
se a beijasses como beijei,
Jamais conseguirias recursos para torná-la arte.
Romã fragrante!
Sou perdido pela minha irracionalidade.
Será que não estiveste comigo nesses momentos?
Eu, agora percebo porque temes...
Estavas comigo!
Perdeste a ti também junto a mim
e isso te faz pecador.
Tu a amas como eu e não comigo.
No entanto, me amas mais.
É quem pensa em mim
e não aceita ter sido induzido pela emoção.
Que ótimo!
Amar o que se esquiva é penetrante e amargo.
Eu, tu és os meus pés, minha boca, minha sobriedade.
De mim, meu pescador que nos alimenta.
Continua sendo o Eu
que pensa distintamente de mim,
para que resistamos ao fantástico, à magia,
à fragmentação que somos.

sábado, 26 de janeiro de 2013

ESPAÇO E TEMPO


“Onde quer que tu vás, ou dia ou noite
Vai seguindo após ti meu pensamento”
Leito de folhas verdes – GONÇALVES DIAS

Em algum lugar do meu passado torno-me presente
sempre que penso em ti.
Viajo do meu presente, que é o futuro,
para viver (não reviver) essa minha grande e única paixão.
Lá eu te conheço, envolvo e te busco para mim.
Com o meu esforço de ganhar o teu amor, tu me percebes e
começas a sentir o que também sinto por ti.
Perdes-te loucamente por mim
numa avassaladora paixão que não tem fim.
Nos amamos sem medo, sem receios em vão;
nosso amor é sublime, lindo e inimaginável.
Não há nada mais belo que o nosso amor,
mas por infelicidade alguém me acorda e do meu passado,
que era o presente, volto ao futuro
que é agora o meu atual presente.
Tive o meu futuro em algum lugar do meu passado.
Não sei o que fazer para continuar a viver
aquele meu passado que tanto se distancia do futuro.
Não sei se tu existes mais; tua época é passada e a minha é atual.
Vivi o meu futuro no passado que era o teu presente
encaminhando-se para o futuro.
Na realidade tu não existes mais,
por isso sou inconformado e triste.
Infelizmente ainda existo e isso é o que nos separa.
Se eu deixasse de existir, nós nos uniríamos outra vez
num lugar onde não há noção de espaço e tempo?
Deixa-se de ter noção de espaço e tempo
quando se perde a percepção dos sentidos,
anulando a possibilidade de conhecer através dos sentimentos.
E sentimentos... tenho muitos a partir de ti.

(Primeiros Momentos, 2001)

MINHA ESPERANÇA


(Ao conto Uma Esperança, de CLARICE LISPECTOR)


A esperança clássica, apesar de ser ilusória, é necessária.
Desperta um sentimento que não tem corpo; tem alma.
É frágil, não suporta pressão nem impaciência, é um inseto!
Ela vai e vem, custa a aprender, não tem lucidez,
mensuração dos fatos, é ingênua.
Trágico é saber o que se vai ser. Não adianta protelar; é realidade.
A esperança é guiada pelos sentimentos,
é o fogo do lar, pode ir aonde quiser.
Se a esperança está ferida, escorre sangue, ela sofre como alguém que diz:
- Cortaram-me o coração;
- Faz-me a alma sangrar.
No pacato mundo da esperança, aparece o antônimo: o desespero.
Agora há um paradoxo; uma eliminará a outra, lei da existência.
As pessoas necessitam da esperança.
Mas o desespero também existe, quer agir, atuar.
Quem merece a esperança?
Quem tem fome existencial para surgir
ou quem tem fome de fé?
Será que não é hora, momento, de agarrar-se à esperança e tê-la
ou deixar alimentar-se um sentimento antagônico à esperança
para o surgimento dele?
A esperança é delicada, é verde, então, o que espera... avance!
 (Primeiros Momentos, 2001)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O DESEJO DO AMOR PELA VIRTUDE


Procuro ser teologal;
estas três virtudes admiro de coração.
Fé, esperança e caridade, uma completa a outra.
Eu nasci para sofrer e acreditar na virtude.
Sofrer é estar disposto a viver sem recear o que a vida
tem para oferecer, mesmo sendo bom ou ruim.
Acreditar é agradecer a Deus tudo que se tem,
considerando–o o Ser Supremo e não se esquecendo
de rogar misericórdias pelos atos falsos.
Acreditar é existir,
a partir do momento em que se acredita, existe–se.
Acredite em sua verdade, que Deus, aos poucos,
de maneira paulatina, mostrar-lhe-á a dele.

Sou um poeta, um amante, um escritor.
Sobrevivo do “nasci porque”.
Esse porquê é que me alimenta e veste–me,
faz–me sorrir e chorar.
Leva–me à dupla personalidade.
Me faz levantar todos os dias
e eleva–me a Deus
em pedido de ajuda, perdão e misericórdia.

- Meu Deus, tire o falso oceano de mim!
Sofro do mal do século!

O desejo é a imaginação em movimento.
O desejo é a distância entre dois corpos.
Horizontal à morte, o desejo torna-se vertical.
Dessa forma, o desejo transforma-se em flecha,
como o arco e flecha da caçadora latina Diana
ou como o da caçadora africana Iyewá,
possuidora de uma indescritível beleza,
que inebria e feri o rei da floresta de fogo.
O desejo e a morte criam o arco.
A flecha lançada por esse arco percorre vertical
e horizontalmente, beirando a morte
para encontrar o segundo corpo.
A morte só triunfará caso a distância
eleve a flecha ao ponto horizontal culminante.

O amor perfeito é sempre onipresente
num livro de conto de fadas, que, aberto, lê–se:
"Era uma vez... E viveram felizes para sempre".
Esse amor é manifestado sem vida, está guardado,
mesmo que se abra o livro,
o amor perfeito não sai, não escapa, não se torna real.

Acreditar faz–me não ser limitado para levar a crer,
porém as barreiras do limite avisto,
sem ultrapassá–las quando sou verdadeiro.
Não meço esforços para ser paciente e persistente,
porém privo–me a viver com o que Deus me concede.
Meu Deus, que o amor e a inteligência
estejam em estado de paroxismo em mim,
para que eu possa assim adquirir
a água destas para saciar minha sede de saber.
28/01/99

(Primeiros Momentos, 2001)