quarta-feira, 10 de junho de 2015

QUEM É ELA QUE...


Quem é ela que me faz observar constantemente o meu único meio de comunicação imediato que me acorrenta numa caverna, deixando–me ver somente as sombras que escondem a verdade e a alegria. As sombras me fazem acreditar numa realidade falsa e limitam meu mundo limitado, fazendo com que eu perca a percepção dos sentidos, a noção do tempo e espaço causada pelo meu único meio de comunicação. Este anula minha possibilidade de conhecer através dos sentimentos, causando–me erroneamente a falsa sensação de ser mais humano. Essa é a realidade virtual que me junta a ela matematicamente.

Pergunto–me o que pode estar acontecendo. Estará ela ocupada fora ou dentro de sua morada. Familiares à sua espreita ensejando sua comunicação. Íntimos a comunicarem–se com ela. Sua consciência espera seu espírito se espreguiçar num momento tranquilo, de paz, amor ou cansaço para retomar a batalha. A consciência é forte, sua tutora não deseja mais esse laço, capricho seu ou dela. Mente para quem mais gosta, a quem concebeu seu corpo unido pelo seu espírito e mente. Por isso o corpo deve explicações; a mente diz que é o certo, e o espírito sabe o que realmente é correto.

Mas quem é ela que tudo toca e às vistas de outros vira ouro. Será que recebeu o dom dado ao rei Midas? Não! As coisas não se tornam ouro porque ela as tocou. Somente para as pessoas que a observam.

Mas quem é ela que induz os outros quererem o obtido e conquista. A ela essas coisas não passam apenas de mero acaso do seu esforço. Que poder tem de atrair o desejo das pessoas para suas coisas.

Quem é ela que nenhum irmão quis adotá–la. Nenhum irmão puxou–lhe o cabelo, arrancou a cabeça de sua boneca. Não brigou na rua para defender um fratello. Ao reencarnar voltou como morgada. Os pais de seu pai não tomaram conta dela à noite, quando seus genitores saíram. Os pais de sua mãe não a paparicaram, quando os chamou de avós. Não comeu do bolo da sua vovó no Domingo de Páscoa. Seu vovô não a chamou para almoçar no momento que estava brincando na rua. No Natal, sua família – avós, tios, primos e pais – não se abraçou nem ceou junta.

Quem é ela que é tão simples, ato humilde. Desprovida de tantos sentimentos afetivos. Não teve o conforto do seio familiar. É feliz, mas não é completa. Tantas pessoas têm o que almeja e inveja, mas o valor que ela conhece não é dado. Irmãos que brigam por tudo, e ela, ali, querendo um para compreender e amar. “- Como Deus foi injusto comigo”, ela diz. Tem apenas o que pode conquistar, que acaba com pouco valor julgado por ela mesmo, e eu sou algo conquistado. Mas as pessoas invejam o que ela pode conquistar. É o que elas almejam ter. São íntimas, são próximas. Nem todo sorriso e abraço são sinceros. Inconscientemente, as pessoas podem desejar o fracasso; não o mal de outras.

Quem é ela que deseja acariciar mais as pessoas postas por Deus em seu caminho do que ser acariciada por elas. Que almeja amar para ser amada do que ter poder para ser bajulada. Que ama e dá valor ao que não tem por ser consciente disto. Suas vitórias são invejadas por muitos. Um pouco de sofrimento seu ajuda a aliviar a inveja de outros. Mas que essas pessoas nada consigam contra ela. Que se tornem o eco de suas palavras.

Mesmo sabendo disso tudo, quem é ela que se demonstra outra a cada dia que a vejo. Essa mulher nada faz sem que a graça a acompanhe.


(Primeiros Momentos, 2001)

QUEM NÃO ESTÁ COMIGO, ESTÁ CONTRA MIM?


“E há duas religiões? disse ele. Temos,
acredito, a religião de todo mundo;
adoramos dia e noite a Deus.”
(Cândido ou o Otimismo, de VOLTAIRE).

Al-ilah, Buda, Olódúmarè, Jáh, Jeová etc. são todos apenas um.
Mesmo que, às vezes, culturalmente heterogêneos.
Como o vinho passa para a água, o plural passa para o singular.
O termo universal para designar o Homogêneo é Deus.

A cultura hegemônica desta época, enfim, contenta-se e apazigua:
"... e todos sabemos disso, então, por que não nos chamarmos de irmãos?
Ainda bem que chegamos a esta conclusão, já que nossa clara cultura está na concorrência há mais tempo... por que não? Com isso, designaremos a todos como tementes ao nosso Deus.
Se tivéssemos dois copos com água (um com líquido puro e cristalino, e o outro com líquido turvo e salobroso) e oferecêssemos a água escura para vocês; se não tivessem escolha, beberiam dela pela sede?
Mas se deixássemos escolher, escolheriam a água limpa?
Caso fosse sim a esta última, o livre arbítrio acarretaria em desconfiança.
Agora, se tivéssemos um copo com água de origem desconhecida, para lhes oferecer, e vocês um copo com água conhecida, se nos apoderássemos deste copo, impondo-os a beberem do nosso, beberiam se estivessem com sede, ou abster-se-iam e morreriam da mesma?
Por que morrer, se seríamos tão justos não os deixando sem água?
Abdicariam da caridade de um bom samaritano, um temente a Deus.
Neófitos, fiquem tranquilos, viverão até morrer! ..."

Deus é único e singular, varia conforme as línguas.
Em todas as culturas são designados nomes para o Arquiteto Universal.
Numa religião não pode ser imposto o aprendizado;
permuta eclética tem de ser mútua.
Quando uma cultura aprender a respeitar a outra,
sem querer ser a melhor, não haverá mais desavenças.
O objetivo de cada uma é inalterável, o amor a Deus e a sua criação.
Pois, decerto ele diz... o crime... da nação: Discriminação!

(Primeiros Momentos, 2001)


ANTÔNIMOS E SINÔNIMOS

DIA,
do que adianta um lindo de sol, 
no carnaval um céu de brigadeiro,
azul repleto de toda sua simbologia auto-estimativa,
Se... em meu quarto há tempestades
Com trovões e relâmpagos
que me lembrariam uma guerra mundial,
caso possuísse mais algumas décadas nas costas;
Se... em mim há nuvens chumbadas e blindadas;
Se... estou
TREVAS.

MORRER

quero pois
É transmudar
É transladar essa condição bipolar
Esse ciclo vaporífero
De escuridão a luz
De melancolia
a LIBERDADE.

É UMA FIGURA


“Feliz não é quem cedo levanta, mas
quem cedo bebendo, o mal espanta.”
(Gargantua – RABELAIS)

Amigo, sua história é a luz da verdade.
Domingo, foi à festa com maldade.
Comprou convite? Comprou não.
O convite é necessário comprá-lo.
A você não lhe agrada tais comentários.
Penetra, não tem medo de ser.
Na grande casa, não podem lá descobrir todos.
A festa é em frente ao braço de mar.
Em uma dança mansa que não cansa,
Comeu mais de dois pratos e morreu.
Deu o último suspiro, caiu para trás.
Acontece que o meu amigo mudou de residência para outro mundo.
Tudo se tornou silêncio, tudo se tornou calma, mudez.
Ó, Deus, guarde a salvo o heroico e altivo beberrão!
Bebeu nada! Esta só frase em si resume tudo.
Está morrendo de frio, ali, no terno de areia que vestiu.
Abaixo, via a terra, base sem nitidez.
Acima, via o céu, redemoinho incessante.
Era um fantasma, que o “Senhor” com sua suave e doce voz a ele falou:
- Levante-se da areia e vamos.
E ele:
- Perrr... doa meusss pecados e leva-me para a tua morada, hic!, Sinhô!
E o “Senhor” disse:
- Pinguço sem teto, que bebe a consciência, a sua casa carregar-lhe não vou! Limpe o vômito do seu corpo, desce desse descente andor e não me chame de Senhor
 .

(Primeiros Momentos, 2001)


* ao amigo Márcio Hilário.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

CRÔNICA DA GALHOFA: FRANGO, PIPOCA E FAROFA

 Acredito que realidade deve ser a cena que ocorre todos os dias aos nossos olhos. Penso que realidade seja a “naturalidade” do “transeunte” que observamos cotidianamente. Sendo assim, o real é o que conhecemos porque é a rotina da retina. A escola é um dado real. Saúde, Educação e Segurança também são dados da nossa realidade. O péssimo funcionamento dessas três instâncias, o descaso dos políticos e a corrupção também são dados da nossa realidade. São cotidianos; porém, inaceitáveis. São sons absurdamente indesejados aos ouvidos. Roubos, assassinatos, estupros, tráfico, corrupções são fatos dos poros. O suor também é normal. Tudo isso acontece até quando estamos dormindo de olhos fechados, mas de ouvidos abertos. O suor não cessa seu ofício nem nos dias mais frios.

Se algo só existe, se o admitirmos como real, então deveríamos aceitar essas existências para podermos combatê-las. O absurdo precisa ser aceito como audível para voltar, talvez, a ser silêncio. Muitos indivíduos sentem prazer em incitar ações cruéis que, às minhas percepções humanas, são anormais e nada naturais ao meu cotidiano mental. Contudo, real e virtualmente, essa anormalidade é manchete corriqueira nos diversos veículos como bancas e bocas: “Mata mesmo. Porrada! Tira sangue”. “Esse menor tem que ir pra cadeia porque matou um senhor de família na Lagoa”. “E os menores mortos pela polícia, na Ilha? Ah, deveriam ser bandidos também”. “Repercussão midiática de ciclista assassinado depende de sua posição socioeconômica”. “Na cadeia, mete todo o cabo de vassoura no ânus desse estuprador!”. “Olha lá, levou um tirambaço de douze na fuça! Compartilha no facebook. Manda o vídeo para o meu watshapp”. “Foi estuprada? Também, olha a roupa dela. Dava até para ver o útero. Bem feito. Ela pediu”. “Esse muleque já tem jeitinho estranho. Vai ser viado, quer ver?”. “Tem que voltar a ditadura! Quem gosta de osso é cachorro”. “Sim à intervenção milita? Mas na favela já ocorre”. “Dane-se; favela é criadouro de bandido pobre e preto”. “Aids? É doença de viado. Já viu um hétero com AIDS? Detesto viado e travesti. Por mim tudo tem que morrer”. “E preto: quem quer ser preto? Mulher preta é pra comer. Os pretos são racistas com eles mesmos”. “Índio usando computador? Onde fomos parar?”. “Sem-terra é tudo vagabundo”. “Pobre é engraçado e confuso. Diz que tem nada. Quando dá uma enchente, diz que perdeu tudo”. “Deveria existir uma lei para prender esses macumbeiros, adoradores de satanás. Tá amarrado!”. “E esses crentes? Abitolados, ex-tudo e enganados pelo pastor salafrário”.

Falta de respeito? Falta de compaixão à diferença? Anormalidades? Essa é a normalidade de nossa sociedade em que indivíduos “moralistas”, ainda temendo abrir a própria boca para soltar seus demônios, apóiam-se em representantes que abrem a caixa de brinquedos sádicos de nosferatu. Não falo em Pandora, pois, coitada, os seres humanos causam o pior. Ter medo de alma penada e de assombração ou de gente viva? Outra coisa: por que sempre espírito padecendo em penitência ou causando terror aos vivos? O mundo dos viventes é melhor do que o destino dos morrentes? Os espaços fronteiriços são mais desconhecidos do que o outro lado da estrutura binária (mundo dos vivos e mundo dos mortos). Os viventes, ainda que não compreendam nem o seu lado, julgam sabiamente o lado dos mortos.

Foi assistindo a uma comunicação sobre Literaturas Fantásticas que comecei a refletir sobre “realidade”. Passei a pensá-la representada pelos acontecimentos prosaicos do dia a dia. Assassinatos, preconceitos, discriminações, violências, corrupções, sexismo, voyeurismo, inveja, cobiça, estupro, guerra. Um mundo binário, purista sem misturas e maniqueísta: se não for do lado B, é a favor do A na luta contra aquele primeiro. Se não for coxinha, é asinha (Mas ambos não são membros de uma mesma ave?). Vivemos num mundo que nega abertamente os sorrateiros e imperceptíveis (???) diálogos que ocorrem entre os lados. É dessa forma que somos normais e reais todos os dias. Somos idiotas ou hipócritas. Melhor, somos um neologismo composto por aglutinação. A sociabilidade de nossa humanidade habita nessas crueldades. Ou, logo, o meu julgamento encontra-se errado. Mas quem sou eu para julgar? Apenas mais um sadomasoquista a admirar a clava de poder às mãos de nem sei qual ser virtual.

Mas eu quero seguir a linha da ruptura, para depois continuar. E quando algum acontecimento rompe com essa normalidade de que falávamos? Sobrenatural? Subreal? Suprarreal? Fantástico? Maravilhoso? Animísticio? Não, apenas temos essa tal realidade de fatos do cotidiano. O real é o dia a dia. Real é o que ocorre com certa frequência. É então que percebemos as intenções que se encontram por trás dos acontecimentos mais prosaicos possíveis. Vivemos no palco da pantomima da galhofa. Concórdia ou discórdia. Vamos à cena que foi rascunhada para o meu personagem nessa trama do cotidiano.

À noite de uma terça-feira dessas, por volta das 19h22, estava na avenida Automóvel Clube. Pensava nos minutos restantes para o findar do dia fatídico na epopeia de retorno à minha Ítaca. Estacionar a nau no pequeno quintal, desembarcar em casa, a gruta do Polifemo. Enfim, faltando uma curva para adentrar a rua de minha casa e estacionar na garagem... Lá estava ele, o gigante Adamastor! Mas eu não sou Vasco da Gama! Aliás, sou um simples flamenguista às asas de um Beija-Flor! De alma e corpo exauridos, depois de um dia quente e de muito engarrafamento, avisto o caminhão do meu vizinho, pela quarta vez (PELA QUARTA VEZ!!!!!) estacionado à passagem em direção às Índias. Eu louco para dormir nos braços da deusa Vênus. E Adamastor plantado ao portão da entrada de minha casa. Só a poesia para transgredir, embelezar e tornar leve a realidade..

Isso é normal? É natural? A insistência na ocorrência é real. Das três ultimas, eu apenas havia tirado fotos, para registrar o caso do vizinho impertinente. Vai que o caso acabasse em delegacia... Não fui à sua casa, não o procurei, ele nem mora na minha rua. Somos adultos o suficiente para entendermos as nossas atitudes equivocadas. Aliás, por que adultos? Há muita responsabilidade em ser criança. Muitos lugares e amigos para criar. Muita luta para manter o encantamento vivo, alimentando o mundo. Entretanto, quase todas elas sucumbem a essa missão tão épica na transição com o mundo adulto.

Dessa vez, o meu estimado vizinho havia estacionado seu caminhão ocupando metade da entrada da garagem. Parei o carro. Desliguei o carro. Fiquei pensando no carro. Saí do carro. Fechei o carro. Dentes trincados. Bruxismo. Então me transformei! Incorporei o estresse gerado nos engarrafamentos do dia eternamente quente (engarrafamento às 5h15, indo para o trabalho; engarrafamento desde as 17h50, voltando para casa). Dizer que este texto não é coeso é fácil. Difícil é encenar (ou escrever) meu papel à flor da pele!

Ações repetitivas sem nenhuma razão. Abri o portão e entrei. Voltei para rua. De novo, entrei no quintal. Voltei para rua. Olhei em volta. Havia umas vizinhas no alto da rua. Claro, fofoqueiras. O alerta mental se acendeu. Vou estacionar assim mesmo! Voltei para o carro, liguei, dei ré e fui com tudo para a garagem. De forma imaginativa para apenas uma criança, inclinei o carro para o lado esquerdo, fazendo-o ficar sobre as duas rodas desse lado. Adentrei a garagem a 80! E olha que não tinha bebido nenhuma! Olha, eu não sei como estacionei o “batemóvel”; logo, prefiro o lado forte da magia. Depois de estacionar, voltei para rua. Olhei as fofoqueiras. Adentrei minha casa bufando, espumando, tão cão raivoso que nem enxerguei meu cachorro que, feliz com minha chegada, queria brincar comigo. Passei direto por ele que pulava em minha perna, a qual não o sentia. Estavam em casa minha filha, minha mãe e meu avô. Os três estavam em frenética atividade iniciática de comilança. Meu avô se preparava para comer uma farofa amarela da yoki. Minha filha tinha acabado de fazer pipoca de micro-ondas, coincidentemente, da yoki. Minha mãe estava com asas de galinha a pôr no óleo para fritar. Foi vendo essa orgia gastronômica que meu cérebro, maquiavelicamente, agiu, sem eu pensar racionalmente. Peguei a farofa do meu avô, que ficara gritando “não, minha farofa, minha farofa!!!”. Minha filha tentou esconder a pipoca, mas peguei na mão grande: “Não, pai! Tá doido?”. Minha mãe, a única afônica, nada entendeu, apenas deixou que eu pegasse três asas cruas. Juntei os três elementos da poção mágica e fui para rua. Claro que meu avô e minha sobrinha correram atrás de mim, para resgatarem seus petiscos. Apenas minha mãe me seguiu curiosa. Então, na rua, comecei a jogar asas de galinha, a farofa amarela e a pipoca sobre o caminhão. Rodei o caminhão fazendo isso. Quando terminei, as fofoqueiras estavam estateladas. Meu avô, minha mãe e minha filha, testemunhando tudo, apenas esperaram voltar para dentro de nosso quintal para gargalharem horrores. Riam alto da galhofa da discórdia. Pronto! Prato cheio! Frango, pipoca, farofa e gargalhadas. Só faltaram o charuto e o marafo!

Em poucos minutos, ouvíamos os gritos na rua. “Meu deus, chama Adamastor!!! Manda ele tirar o caminhão da porta do vizinho! Ele botou um feitiço. Ele tá atazanado! Tá amarrado! Meu deus, manda logo!” Confesso que fiquei muito nervoso. Não refleti sobre a minha atitude. Agi normalmente? Fui real? Fui natural? E o meu interlocutor... como foi sua leitura? Não me atentei aos percalços, às sanções. Sou franzino e fraco. E, como sabemos, Adamastor é um gigante. Todavia, a energia do redemoinho esteve ao meu lado. Só sei que horas depois o caminhão não estava mais, respeitosamente, estacionado em frente à garagem de minha casa. Salve a energia que fala todos os idiomas!

Como às 22h ainda é terça, vou beber uma. E, simulacro por simulacro, me deixa beber onde eu quiser. Por isso, vou às asas da imaginação para o bar do Jorginho. Lá, como sou amigo do rei, ninguém sentará na minha cadeira, impedindo-me de relaxar nesse estabelecimento. Estando à mesa, antes do primeiro gole, colocarei uma chapinha de garrafa no pé desta, para que me deixe equilibrado nesse final de grande hora que se rende à chegada da próxima. Nada melhor que um dia após o outro. O mal ou bem sobrevivem maniqueistamente ao olhar do oportunista. O poder é simbólico e está nas mãos que não são as minhas.

Só adianto que, uma semana após o causo, num dia qualquer outro, quando fui ao barbeiro de meu bairro, uma criança, que estava junto à mãe, soltou a seguinte frase: “Mãe, olha o bruxo atazanado!” Enquanto isso, lá em casa, minha filha, a quem apelidei de “menina de porcelana”, me chama de “Oscar Diggs, o mágico de Oz”. É... a dramaturgia da loucura furiosa trouxe a normalidade da paz e da harmonia reais ao nosso povoado. Graças a Deus, até hoje não encontrei mais nenhum carro estacionado à entrada de minha garagem. A consciência humana é mais! A poesia é mais! E que as bruxas expulsas de Oz não retornem tão cedo.

segunda-feira, 2 de março de 2015

NAQUELES DIAS DE ATRASO...

Terça-feira. Olho o celular. São 3h54. Ainda falta meia hora para despertar seu alarme, e eu me levantar da cama. Às 5h05, pronto, parto de casa. Então voltei a sonhar. Sonhava que, antes de viajar, uma senhora, ao portão de sua casa, me dizia que, para o almoço, prepararia uma apetitosa feijoada. Ela lamentava minha ausência, pois não provaria, nesse momento, sua iguaria. Porém, me prometera guardar um pouco para mim, quando, à noite, eu retornasse. Desperto. E esse relógio-celular não desperta? 5h02! Salto da cama. Atrasado. O relógio do celular não acordou. Apronto-me de forma descompassada e ligeira. Como viajarei após o almoço, levo a mala e a pasta de trabalho para o carro. Estresse previsto: engarrafamento. Cadê a chave do carro? Ponho a mala e a pasta no chão. Celular no bolso da calça. Volto para casa. Cachorros se esgoelando como se vissem um intruso! As chaves, onde as botei? Sumiram. Cinco minutos depois... achei. Volto para o carro. Ponho na mala a mala. Destino: Botafogo. Saindo às 5h05, comumente chego, por volta das 6h20, ao trabalho. O ofício começa às 7h. Hoje, atraso considerável! E, quem sabe, não aceitável. O trabalho é tenso. Direção que prima pela excelência. Clientes exigentes. Já na estrada - engarrafamento -; antes é preciso abastecer o veículo:
- Álcool ou gasolina?
- Gasolina. Completa.
- Ok, patrão.
A única ideia certa era a do estresse pelo engarrafamento, que se insistia na mente; agora visivelmente pelo horizonte do dia já claro, como se todos se encaminhassem para o nascer do sol.
- Família, deu R$ XXX,XX.
- Só um instante... Ué, onde está minha pasta? Não está aqui dentro... então devo ter colocado na mala... doideira. Calma, acho que deixei na mala... vou abri-la...
Não. Para meu desespero, esqueci a pasta de trabalho, na qual guardo minha carteira. O suor do rosto, que antes era do calor, agora é frio. Após a afonia de horas pela constatação e vergonha, balbuciei, em comunicado, o ocorrido: “Esqueci a carteira”.
- Meu amigo, eu esqueci a minha carteira em casa. Saí atrasado. Esqueci. Pelo amor de deus, eu nãos sei o que fazer. Você não sabe...
- Tu tá de sacanagem, né? Não sou amigo de ninguém. Você vai ter que pagar essa gasolina.
- Mas...
- Eu não vou pagar essa porra. Porra, uma hora dessa e neguinho quer me fu...? Eu, aqui, trabalhador, na madruga, e você vem me zoar com a minha cara? Eu tenho filho pequeno para dar de alimentar. Não estou na sacanagem, não.
- Por favor, eu esqueci...
- Vai sair com o carro não. Me dá essa chave. Vou pagar porra nenhuma.
- Meu irmão, por favor, acredita em mim. Eu saí de casa atrasado e esqueci minha carteira. Desculpa, por favor, eu não o quero sacanear, não estou desrespeitando, não quero tirar proveito. Não sei mesmo o que fazer. O gerente tá aí?
- Meu irmão nada. Fulano, vem aqui. Tô com um problemão aqui.
As horas passando. Estresse agravando. Constrangimento aumentado. Outros clientes: “paga essa porra logo, caloteiro safado! Esculachando trabalhador!” Eu, choro contido: vergonha. O frentista, choro contido: desrespeito. Bem X Mal? Mal X Bem? Não. Bem X Bem. Quem deve vencer? A tragédia? Pelas duas vias, a credibilidade humana posta em cheque... cheque sem fundo. Tentei pensar no trabalho. Não consegui. Minha cabeça tinha sido decepada. Constrangimento generalizado. Horas depois...
- Meu amigo, eu juro que volto e pago. Falo a verdade. Dou minha palavra. Quer ficar com meu relógio por garantia? Fica com meu relógio!
- Não, vai lá...
- Não posso deixar o celular porque preciso avisar sobre meu atraso.
- Não, tá maneiro. Se adianta aí. Já tô ferrado mesmo. Vou ter que pagar essa merda mesmo. Devo ter cara de otário para isso sempre acontecer comigo. Da próxima vez, vem de pistola que eu fico quietinho, mas na mão grande não...
Saí logo para não ouvir mais lamúrias e praguejamentos. Sem carteira, sem lenço, sem documento e consternado pelo que causei ao rapaz. Para fugir do engarrafamento, tive de pegar uma saída estratégica, porém “perigosa”. Adentrei uma comunidade em que o policiamento ou tráfico poderiam me achar “suspeito”. Se me parassem para averiguação, no estilo Bezerra da Silva, nem babilaque eu tinha na mão. Aí, o bicho ia pegar mesmo. Todavia... segui em frente, com uma mão no coração, a outra no tessubá. Putz! E o volante? As duas no volante como se decidisse, com firmeza, a segurança do meu destino. Enfim, cheguei à Pavuna e consegui me encaminhar na senda de retorno para casa. Parei, desci, entrei, peguei a pasta, arranquei para o posto. Por quase duas vezes, bati no carro da frente. Nervosismo. Estacionei o carro no fatídico posto de gasolina, mas, a olhos turvos, não avistei terra firme, ou melhor, o frentista pseudoludibriado. Reconheci apenas o tal Fulano, verdade desse momento, e pedi para passar, rapidamente, o cartão de débito. Mil desculpas!!!! Agradecimentos mútuos.
Agora, o jeito é voltar para Pavuna: melhor opção para o caos do trânsito carioca! Novamente o caminho tortuoso, mas com documentos na mão e alguma farpela para possível “pedágio”! Dessa vez, eu não dava brecha para razão; se me fizessem mal na “dura”, seria por coração.
Metrô: Pavuna → Botafogo. Fila para passagem: quilométrica, mas ágil. Metrô, como diria Oswald de Andrade: também um transatlântico de pernas mescladas. Era pouco chão para muitos pés. Me lembro de que, antigamente, soltávamos em Engenheiro Rubens Paiva, para voltarmos para Pavuna. Estratagema: ir sentado. Agora, para conquistar o tão almejado “conforto”, é preciso fazer baldeação duas estações para frente. Adentrar o metrô também não é uma simples missão. Nesse formigueiro entram e saem formigas operárias a todo instante. Aliás, mais entram do que saem. Por isso, sair também se torna uma tarefa árdua. Da última vez que deveria ter soltado na estação de São Cristóvão, o meu corpo estava de tal forma obstruído e atrelado a outros corpos - como se fizéssemos parte do mesmo único - que fui “parido” apenas na Uruguaiana. Ligam-me do trabalho. O canal de comunicação não funciona bem. A tensão aumenta. Enfim, cheguei à estação de Botafogo, última parada do metrô, pois ocorreu pane. Ainda bem pra mim; ruim para os outros. Após 10 minutos de suada “caminhada”, chego ao sacrossanto espaço de labuta! Tensão aumentada. Gastrite no refluxo, quase espuma de canto de boca.
Quando o dia começa assim cavernoso, temos a sensação de que nada dará certo. E este meu dia tenebroso nasceu prematuro. A essa hora, os abutres já devoram as entranhas de Prometeu. Sísifo já empurra sua pedra montanha acima. Depois, a regeneração do estômago e a pedra rolando para baixo. Amanhã, a condenação recomeça. Isso só por que cometeram um erro cabal aos olhos dos julgadores? E quem olha por nós, os sempre julgados? O medo é deixar o “patrão” saber que ele não precisa de você, pois já há outro candidato [submisso pelas circunstâncias da vida] na sala de espera, aguardando a entrevista [a oportunidade para “assobiar e chupar cana”], embora sequer, por enquanto, haja vaga. Outras vezes, um “colega” sabota o caminho de um “rival”, jogando uma casca de banana aqui, pondo um pouco de óleo ali... para alguns, reféns da infelicidade, a felicidade trazida pelo dinheiro pode ser garantida pelos desvios de conduta.
Esbaforido e suado, adentro o local de trabalho. Esperando por um sorriso amarelo ou rancoroso ou desconfiado ou debochado ou desaprovador dos meus superiores... sou, contrariando minhas expectativas, recepcionado com carinho, preocupação... e, principalmente, bom humor. “Água? Café? Sofá! Ar condicionado! Uma massagista? Para a sala de trabalho só após estar refeito do susto.” Eu digo para mim mesmo: Não entendi o enredo desse samba, amor. Sim, me refiz feliz com a humanidade com qual fui acolhido. A forma como fui tratado me recordou um filme da infância, o qual havia revisto recentemente. As setes faces de Doutor Lao. Doutor Lao é um velho chinês, de mais ou menos uns 7322 anos de idade. Ele chega a uma cidade, dominada por valores distorcidos, com seu miraculoso circo. No seu circo, quase que de horrores, são apresentados seres (semi)mitológicos que espelham o caráter e o sentimento de muitos dos cidadãos do local. Dessa forma, os seres circenses de Lao refletem, surpreendentemente, os deuses e demônios que habitam o nosso interior, como se fôssemos um pequeno peixe a alojar várias individualidades. Fora do aquário, habitat adaptável, o peixinho mascote do Doutor Lao vira um dragão de sete cabeças, sem deixar de ser, intrinsecamente, o mesmo ser. O estranho é que os monstros ou anjos que habitam o nosso interior nos desejam devorar, para todos se libertarem ao mesmo tempo. Lembro-me das sábias palavras do velho doutor Lao: “o mundo todo é um circo”. Quando olharmos para um punhado de areia e enxergamos além dessa condição material, lá estará o circo de Lao. A metáfora da magia retratada na visão além do punhado de areia é a tônica das surpresas cotidianas. Nesse truísmo, precisamos respirar o encanto da vida. Todos os dias, embora existam más condutas, os seres humanos ainda cultivam valores que o dinheiro não compra.
Na nossa epopeia, para qual somos destinados ou condenados todos os dias, nós, seres absurdamente normais, temos que estrangular um leão de Nemeia por dia. E olha que esse é apenas o primeiro dos doze trabalhos hercúleos diários. Bela, a epopeia é bela quando nos recorda a imperfeição habitual de nossa condição mais humana. Superar epicamente os obstáculos mais prosaicos. Nem sempre é possível termos a inocente percepção de que somos "inteiramente" felizes ou realizados todos os dias, em todos os turnos. Contudo, podemos escolher viver bem com o que tivermos às mãos. Após uma manhã desarmônica, mas, inesperadamente, contornada pela beleza de ser humano, saio feliz para o almoço. Boa pedida, boa companhia, boa digestão: “Refeitório Orgânico”, em Botafogo.
O que leva à escrita não é a ação da estória lancinante entre o bem e o bem, na qual cada um defende a verdade do seu ponto de vista. Mas a compreensão humanitária subjugando as conveniências do dinheiro, permitindo a percepção da ótica na “verdade” do outro. Cada um com sua linguagem, cada um com seu humor, cada um sonhando, em esperança, uma boa ação alheia.
É... porém, penso ser melhor comprar um despertador de pilha. Que eu não me atrase semana que vem! Senão... sofrerei com a fúria dos Titãs... Nesse caso, esquecer ou não a carteira dará no mesmo. Entretanto, calote no frentista, ah, isso não.