segunda-feira, 2 de março de 2015

NAQUELES DIAS DE ATRASO...

Terça-feira. Olho o celular. São 3h54. Ainda falta meia hora para despertar seu alarme, e eu me levantar da cama. Às 5h05, pronto, parto de casa. Então voltei a sonhar. Sonhava que, antes de viajar, uma senhora, ao portão de sua casa, me dizia que, para o almoço, prepararia uma apetitosa feijoada. Ela lamentava minha ausência, pois não provaria, nesse momento, sua iguaria. Porém, me prometera guardar um pouco para mim, quando, à noite, eu retornasse. Desperto. E esse relógio-celular não desperta? 5h02! Salto da cama. Atrasado. O relógio do celular não acordou. Apronto-me de forma descompassada e ligeira. Como viajarei após o almoço, levo a mala e a pasta de trabalho para o carro. Estresse previsto: engarrafamento. Cadê a chave do carro? Ponho a mala e a pasta no chão. Celular no bolso da calça. Volto para casa. Cachorros se esgoelando como se vissem um intruso! As chaves, onde as botei? Sumiram. Cinco minutos depois... achei. Volto para o carro. Ponho na mala a mala. Destino: Botafogo. Saindo às 5h05, comumente chego, por volta das 6h20, ao trabalho. O ofício começa às 7h. Hoje, atraso considerável! E, quem sabe, não aceitável. O trabalho é tenso. Direção que prima pela excelência. Clientes exigentes. Já na estrada - engarrafamento -; antes é preciso abastecer o veículo:
- Álcool ou gasolina?
- Gasolina. Completa.
- Ok, patrão.
A única ideia certa era a do estresse pelo engarrafamento, que se insistia na mente; agora visivelmente pelo horizonte do dia já claro, como se todos se encaminhassem para o nascer do sol.
- Família, deu R$ XXX,XX.
- Só um instante... Ué, onde está minha pasta? Não está aqui dentro... então devo ter colocado na mala... doideira. Calma, acho que deixei na mala... vou abri-la...
Não. Para meu desespero, esqueci a pasta de trabalho, na qual guardo minha carteira. O suor do rosto, que antes era do calor, agora é frio. Após a afonia de horas pela constatação e vergonha, balbuciei, em comunicado, o ocorrido: “Esqueci a carteira”.
- Meu amigo, eu esqueci a minha carteira em casa. Saí atrasado. Esqueci. Pelo amor de deus, eu nãos sei o que fazer. Você não sabe...
- Tu tá de sacanagem, né? Não sou amigo de ninguém. Você vai ter que pagar essa gasolina.
- Mas...
- Eu não vou pagar essa porra. Porra, uma hora dessa e neguinho quer me fu...? Eu, aqui, trabalhador, na madruga, e você vem me zoar com a minha cara? Eu tenho filho pequeno para dar de alimentar. Não estou na sacanagem, não.
- Por favor, eu esqueci...
- Vai sair com o carro não. Me dá essa chave. Vou pagar porra nenhuma.
- Meu irmão, por favor, acredita em mim. Eu saí de casa atrasado e esqueci minha carteira. Desculpa, por favor, eu não o quero sacanear, não estou desrespeitando, não quero tirar proveito. Não sei mesmo o que fazer. O gerente tá aí?
- Meu irmão nada. Fulano, vem aqui. Tô com um problemão aqui.
As horas passando. Estresse agravando. Constrangimento aumentado. Outros clientes: “paga essa porra logo, caloteiro safado! Esculachando trabalhador!” Eu, choro contido: vergonha. O frentista, choro contido: desrespeito. Bem X Mal? Mal X Bem? Não. Bem X Bem. Quem deve vencer? A tragédia? Pelas duas vias, a credibilidade humana posta em cheque... cheque sem fundo. Tentei pensar no trabalho. Não consegui. Minha cabeça tinha sido decepada. Constrangimento generalizado. Horas depois...
- Meu amigo, eu juro que volto e pago. Falo a verdade. Dou minha palavra. Quer ficar com meu relógio por garantia? Fica com meu relógio!
- Não, vai lá...
- Não posso deixar o celular porque preciso avisar sobre meu atraso.
- Não, tá maneiro. Se adianta aí. Já tô ferrado mesmo. Vou ter que pagar essa merda mesmo. Devo ter cara de otário para isso sempre acontecer comigo. Da próxima vez, vem de pistola que eu fico quietinho, mas na mão grande não...
Saí logo para não ouvir mais lamúrias e praguejamentos. Sem carteira, sem lenço, sem documento e consternado pelo que causei ao rapaz. Para fugir do engarrafamento, tive de pegar uma saída estratégica, porém “perigosa”. Adentrei uma comunidade em que o policiamento ou tráfico poderiam me achar “suspeito”. Se me parassem para averiguação, no estilo Bezerra da Silva, nem babilaque eu tinha na mão. Aí, o bicho ia pegar mesmo. Todavia... segui em frente, com uma mão no coração, a outra no tessubá. Putz! E o volante? As duas no volante como se decidisse, com firmeza, a segurança do meu destino. Enfim, cheguei à Pavuna e consegui me encaminhar na senda de retorno para casa. Parei, desci, entrei, peguei a pasta, arranquei para o posto. Por quase duas vezes, bati no carro da frente. Nervosismo. Estacionei o carro no fatídico posto de gasolina, mas, a olhos turvos, não avistei terra firme, ou melhor, o frentista pseudoludibriado. Reconheci apenas o tal Fulano, verdade desse momento, e pedi para passar, rapidamente, o cartão de débito. Mil desculpas!!!! Agradecimentos mútuos.
Agora, o jeito é voltar para Pavuna: melhor opção para o caos do trânsito carioca! Novamente o caminho tortuoso, mas com documentos na mão e alguma farpela para possível “pedágio”! Dessa vez, eu não dava brecha para razão; se me fizessem mal na “dura”, seria por coração.
Metrô: Pavuna → Botafogo. Fila para passagem: quilométrica, mas ágil. Metrô, como diria Oswald de Andrade: também um transatlântico de pernas mescladas. Era pouco chão para muitos pés. Me lembro de que, antigamente, soltávamos em Engenheiro Rubens Paiva, para voltarmos para Pavuna. Estratagema: ir sentado. Agora, para conquistar o tão almejado “conforto”, é preciso fazer baldeação duas estações para frente. Adentrar o metrô também não é uma simples missão. Nesse formigueiro entram e saem formigas operárias a todo instante. Aliás, mais entram do que saem. Por isso, sair também se torna uma tarefa árdua. Da última vez que deveria ter soltado na estação de São Cristóvão, o meu corpo estava de tal forma obstruído e atrelado a outros corpos - como se fizéssemos parte do mesmo único - que fui “parido” apenas na Uruguaiana. Ligam-me do trabalho. O canal de comunicação não funciona bem. A tensão aumenta. Enfim, cheguei à estação de Botafogo, última parada do metrô, pois ocorreu pane. Ainda bem pra mim; ruim para os outros. Após 10 minutos de suada “caminhada”, chego ao sacrossanto espaço de labuta! Tensão aumentada. Gastrite no refluxo, quase espuma de canto de boca.
Quando o dia começa assim cavernoso, temos a sensação de que nada dará certo. E este meu dia tenebroso nasceu prematuro. A essa hora, os abutres já devoram as entranhas de Prometeu. Sísifo já empurra sua pedra montanha acima. Depois, a regeneração do estômago e a pedra rolando para baixo. Amanhã, a condenação recomeça. Isso só por que cometeram um erro cabal aos olhos dos julgadores? E quem olha por nós, os sempre julgados? O medo é deixar o “patrão” saber que ele não precisa de você, pois já há outro candidato [submisso pelas circunstâncias da vida] na sala de espera, aguardando a entrevista [a oportunidade para “assobiar e chupar cana”], embora sequer, por enquanto, haja vaga. Outras vezes, um “colega” sabota o caminho de um “rival”, jogando uma casca de banana aqui, pondo um pouco de óleo ali... para alguns, reféns da infelicidade, a felicidade trazida pelo dinheiro pode ser garantida pelos desvios de conduta.
Esbaforido e suado, adentro o local de trabalho. Esperando por um sorriso amarelo ou rancoroso ou desconfiado ou debochado ou desaprovador dos meus superiores... sou, contrariando minhas expectativas, recepcionado com carinho, preocupação... e, principalmente, bom humor. “Água? Café? Sofá! Ar condicionado! Uma massagista? Para a sala de trabalho só após estar refeito do susto.” Eu digo para mim mesmo: Não entendi o enredo desse samba, amor. Sim, me refiz feliz com a humanidade com qual fui acolhido. A forma como fui tratado me recordou um filme da infância, o qual havia revisto recentemente. As setes faces de Doutor Lao. Doutor Lao é um velho chinês, de mais ou menos uns 7322 anos de idade. Ele chega a uma cidade, dominada por valores distorcidos, com seu miraculoso circo. No seu circo, quase que de horrores, são apresentados seres (semi)mitológicos que espelham o caráter e o sentimento de muitos dos cidadãos do local. Dessa forma, os seres circenses de Lao refletem, surpreendentemente, os deuses e demônios que habitam o nosso interior, como se fôssemos um pequeno peixe a alojar várias individualidades. Fora do aquário, habitat adaptável, o peixinho mascote do Doutor Lao vira um dragão de sete cabeças, sem deixar de ser, intrinsecamente, o mesmo ser. O estranho é que os monstros ou anjos que habitam o nosso interior nos desejam devorar, para todos se libertarem ao mesmo tempo. Lembro-me das sábias palavras do velho doutor Lao: “o mundo todo é um circo”. Quando olharmos para um punhado de areia e enxergamos além dessa condição material, lá estará o circo de Lao. A metáfora da magia retratada na visão além do punhado de areia é a tônica das surpresas cotidianas. Nesse truísmo, precisamos respirar o encanto da vida. Todos os dias, embora existam más condutas, os seres humanos ainda cultivam valores que o dinheiro não compra.
Na nossa epopeia, para qual somos destinados ou condenados todos os dias, nós, seres absurdamente normais, temos que estrangular um leão de Nemeia por dia. E olha que esse é apenas o primeiro dos doze trabalhos hercúleos diários. Bela, a epopeia é bela quando nos recorda a imperfeição habitual de nossa condição mais humana. Superar epicamente os obstáculos mais prosaicos. Nem sempre é possível termos a inocente percepção de que somos "inteiramente" felizes ou realizados todos os dias, em todos os turnos. Contudo, podemos escolher viver bem com o que tivermos às mãos. Após uma manhã desarmônica, mas, inesperadamente, contornada pela beleza de ser humano, saio feliz para o almoço. Boa pedida, boa companhia, boa digestão: “Refeitório Orgânico”, em Botafogo.
O que leva à escrita não é a ação da estória lancinante entre o bem e o bem, na qual cada um defende a verdade do seu ponto de vista. Mas a compreensão humanitária subjugando as conveniências do dinheiro, permitindo a percepção da ótica na “verdade” do outro. Cada um com sua linguagem, cada um com seu humor, cada um sonhando, em esperança, uma boa ação alheia.
É... porém, penso ser melhor comprar um despertador de pilha. Que eu não me atrase semana que vem! Senão... sofrerei com a fúria dos Titãs... Nesse caso, esquecer ou não a carteira dará no mesmo. Entretanto, calote no frentista, ah, isso não.