sexta-feira, 29 de maio de 2015

CRÔNICA DA GALHOFA: FRANGO, PIPOCA E FAROFA

 Acredito que realidade deve ser a cena que ocorre todos os dias aos nossos olhos. Penso que realidade seja a “naturalidade” do “transeunte” que observamos cotidianamente. Sendo assim, o real é o que conhecemos porque é a rotina da retina. A escola é um dado real. Saúde, Educação e Segurança também são dados da nossa realidade. O péssimo funcionamento dessas três instâncias, o descaso dos políticos e a corrupção também são dados da nossa realidade. São cotidianos; porém, inaceitáveis. São sons absurdamente indesejados aos ouvidos. Roubos, assassinatos, estupros, tráfico, corrupções são fatos dos poros. O suor também é normal. Tudo isso acontece até quando estamos dormindo de olhos fechados, mas de ouvidos abertos. O suor não cessa seu ofício nem nos dias mais frios.

Se algo só existe, se o admitirmos como real, então deveríamos aceitar essas existências para podermos combatê-las. O absurdo precisa ser aceito como audível para voltar, talvez, a ser silêncio. Muitos indivíduos sentem prazer em incitar ações cruéis que, às minhas percepções humanas, são anormais e nada naturais ao meu cotidiano mental. Contudo, real e virtualmente, essa anormalidade é manchete corriqueira nos diversos veículos como bancas e bocas: “Mata mesmo. Porrada! Tira sangue”. “Esse menor tem que ir pra cadeia porque matou um senhor de família na Lagoa”. “E os menores mortos pela polícia, na Ilha? Ah, deveriam ser bandidos também”. “Repercussão midiática de ciclista assassinado depende de sua posição socioeconômica”. “Na cadeia, mete todo o cabo de vassoura no ânus desse estuprador!”. “Olha lá, levou um tirambaço de douze na fuça! Compartilha no facebook. Manda o vídeo para o meu watshapp”. “Foi estuprada? Também, olha a roupa dela. Dava até para ver o útero. Bem feito. Ela pediu”. “Esse muleque já tem jeitinho estranho. Vai ser viado, quer ver?”. “Tem que voltar a ditadura! Quem gosta de osso é cachorro”. “Sim à intervenção milita? Mas na favela já ocorre”. “Dane-se; favela é criadouro de bandido pobre e preto”. “Aids? É doença de viado. Já viu um hétero com AIDS? Detesto viado e travesti. Por mim tudo tem que morrer”. “E preto: quem quer ser preto? Mulher preta é pra comer. Os pretos são racistas com eles mesmos”. “Índio usando computador? Onde fomos parar?”. “Sem-terra é tudo vagabundo”. “Pobre é engraçado e confuso. Diz que tem nada. Quando dá uma enchente, diz que perdeu tudo”. “Deveria existir uma lei para prender esses macumbeiros, adoradores de satanás. Tá amarrado!”. “E esses crentes? Abitolados, ex-tudo e enganados pelo pastor salafrário”.

Falta de respeito? Falta de compaixão à diferença? Anormalidades? Essa é a normalidade de nossa sociedade em que indivíduos “moralistas”, ainda temendo abrir a própria boca para soltar seus demônios, apóiam-se em representantes que abrem a caixa de brinquedos sádicos de nosferatu. Não falo em Pandora, pois, coitada, os seres humanos causam o pior. Ter medo de alma penada e de assombração ou de gente viva? Outra coisa: por que sempre espírito padecendo em penitência ou causando terror aos vivos? O mundo dos viventes é melhor do que o destino dos morrentes? Os espaços fronteiriços são mais desconhecidos do que o outro lado da estrutura binária (mundo dos vivos e mundo dos mortos). Os viventes, ainda que não compreendam nem o seu lado, julgam sabiamente o lado dos mortos.

Foi assistindo a uma comunicação sobre Literaturas Fantásticas que comecei a refletir sobre “realidade”. Passei a pensá-la representada pelos acontecimentos prosaicos do dia a dia. Assassinatos, preconceitos, discriminações, violências, corrupções, sexismo, voyeurismo, inveja, cobiça, estupro, guerra. Um mundo binário, purista sem misturas e maniqueísta: se não for do lado B, é a favor do A na luta contra aquele primeiro. Se não for coxinha, é asinha (Mas ambos não são membros de uma mesma ave?). Vivemos num mundo que nega abertamente os sorrateiros e imperceptíveis (???) diálogos que ocorrem entre os lados. É dessa forma que somos normais e reais todos os dias. Somos idiotas ou hipócritas. Melhor, somos um neologismo composto por aglutinação. A sociabilidade de nossa humanidade habita nessas crueldades. Ou, logo, o meu julgamento encontra-se errado. Mas quem sou eu para julgar? Apenas mais um sadomasoquista a admirar a clava de poder às mãos de nem sei qual ser virtual.

Mas eu quero seguir a linha da ruptura, para depois continuar. E quando algum acontecimento rompe com essa normalidade de que falávamos? Sobrenatural? Subreal? Suprarreal? Fantástico? Maravilhoso? Animísticio? Não, apenas temos essa tal realidade de fatos do cotidiano. O real é o dia a dia. Real é o que ocorre com certa frequência. É então que percebemos as intenções que se encontram por trás dos acontecimentos mais prosaicos possíveis. Vivemos no palco da pantomima da galhofa. Concórdia ou discórdia. Vamos à cena que foi rascunhada para o meu personagem nessa trama do cotidiano.

À noite de uma terça-feira dessas, por volta das 19h22, estava na avenida Automóvel Clube. Pensava nos minutos restantes para o findar do dia fatídico na epopeia de retorno à minha Ítaca. Estacionar a nau no pequeno quintal, desembarcar em casa, a gruta do Polifemo. Enfim, faltando uma curva para adentrar a rua de minha casa e estacionar na garagem... Lá estava ele, o gigante Adamastor! Mas eu não sou Vasco da Gama! Aliás, sou um simples flamenguista às asas de um Beija-Flor! De alma e corpo exauridos, depois de um dia quente e de muito engarrafamento, avisto o caminhão do meu vizinho, pela quarta vez (PELA QUARTA VEZ!!!!!) estacionado à passagem em direção às Índias. Eu louco para dormir nos braços da deusa Vênus. E Adamastor plantado ao portão da entrada de minha casa. Só a poesia para transgredir, embelezar e tornar leve a realidade..

Isso é normal? É natural? A insistência na ocorrência é real. Das três ultimas, eu apenas havia tirado fotos, para registrar o caso do vizinho impertinente. Vai que o caso acabasse em delegacia... Não fui à sua casa, não o procurei, ele nem mora na minha rua. Somos adultos o suficiente para entendermos as nossas atitudes equivocadas. Aliás, por que adultos? Há muita responsabilidade em ser criança. Muitos lugares e amigos para criar. Muita luta para manter o encantamento vivo, alimentando o mundo. Entretanto, quase todas elas sucumbem a essa missão tão épica na transição com o mundo adulto.

Dessa vez, o meu estimado vizinho havia estacionado seu caminhão ocupando metade da entrada da garagem. Parei o carro. Desliguei o carro. Fiquei pensando no carro. Saí do carro. Fechei o carro. Dentes trincados. Bruxismo. Então me transformei! Incorporei o estresse gerado nos engarrafamentos do dia eternamente quente (engarrafamento às 5h15, indo para o trabalho; engarrafamento desde as 17h50, voltando para casa). Dizer que este texto não é coeso é fácil. Difícil é encenar (ou escrever) meu papel à flor da pele!

Ações repetitivas sem nenhuma razão. Abri o portão e entrei. Voltei para rua. De novo, entrei no quintal. Voltei para rua. Olhei em volta. Havia umas vizinhas no alto da rua. Claro, fofoqueiras. O alerta mental se acendeu. Vou estacionar assim mesmo! Voltei para o carro, liguei, dei ré e fui com tudo para a garagem. De forma imaginativa para apenas uma criança, inclinei o carro para o lado esquerdo, fazendo-o ficar sobre as duas rodas desse lado. Adentrei a garagem a 80! E olha que não tinha bebido nenhuma! Olha, eu não sei como estacionei o “batemóvel”; logo, prefiro o lado forte da magia. Depois de estacionar, voltei para rua. Olhei as fofoqueiras. Adentrei minha casa bufando, espumando, tão cão raivoso que nem enxerguei meu cachorro que, feliz com minha chegada, queria brincar comigo. Passei direto por ele que pulava em minha perna, a qual não o sentia. Estavam em casa minha filha, minha mãe e meu avô. Os três estavam em frenética atividade iniciática de comilança. Meu avô se preparava para comer uma farofa amarela da yoki. Minha filha tinha acabado de fazer pipoca de micro-ondas, coincidentemente, da yoki. Minha mãe estava com asas de galinha a pôr no óleo para fritar. Foi vendo essa orgia gastronômica que meu cérebro, maquiavelicamente, agiu, sem eu pensar racionalmente. Peguei a farofa do meu avô, que ficara gritando “não, minha farofa, minha farofa!!!”. Minha filha tentou esconder a pipoca, mas peguei na mão grande: “Não, pai! Tá doido?”. Minha mãe, a única afônica, nada entendeu, apenas deixou que eu pegasse três asas cruas. Juntei os três elementos da poção mágica e fui para rua. Claro que meu avô e minha sobrinha correram atrás de mim, para resgatarem seus petiscos. Apenas minha mãe me seguiu curiosa. Então, na rua, comecei a jogar asas de galinha, a farofa amarela e a pipoca sobre o caminhão. Rodei o caminhão fazendo isso. Quando terminei, as fofoqueiras estavam estateladas. Meu avô, minha mãe e minha filha, testemunhando tudo, apenas esperaram voltar para dentro de nosso quintal para gargalharem horrores. Riam alto da galhofa da discórdia. Pronto! Prato cheio! Frango, pipoca, farofa e gargalhadas. Só faltaram o charuto e o marafo!

Em poucos minutos, ouvíamos os gritos na rua. “Meu deus, chama Adamastor!!! Manda ele tirar o caminhão da porta do vizinho! Ele botou um feitiço. Ele tá atazanado! Tá amarrado! Meu deus, manda logo!” Confesso que fiquei muito nervoso. Não refleti sobre a minha atitude. Agi normalmente? Fui real? Fui natural? E o meu interlocutor... como foi sua leitura? Não me atentei aos percalços, às sanções. Sou franzino e fraco. E, como sabemos, Adamastor é um gigante. Todavia, a energia do redemoinho esteve ao meu lado. Só sei que horas depois o caminhão não estava mais, respeitosamente, estacionado em frente à garagem de minha casa. Salve a energia que fala todos os idiomas!

Como às 22h ainda é terça, vou beber uma. E, simulacro por simulacro, me deixa beber onde eu quiser. Por isso, vou às asas da imaginação para o bar do Jorginho. Lá, como sou amigo do rei, ninguém sentará na minha cadeira, impedindo-me de relaxar nesse estabelecimento. Estando à mesa, antes do primeiro gole, colocarei uma chapinha de garrafa no pé desta, para que me deixe equilibrado nesse final de grande hora que se rende à chegada da próxima. Nada melhor que um dia após o outro. O mal ou bem sobrevivem maniqueistamente ao olhar do oportunista. O poder é simbólico e está nas mãos que não são as minhas.

Só adianto que, uma semana após o causo, num dia qualquer outro, quando fui ao barbeiro de meu bairro, uma criança, que estava junto à mãe, soltou a seguinte frase: “Mãe, olha o bruxo atazanado!” Enquanto isso, lá em casa, minha filha, a quem apelidei de “menina de porcelana”, me chama de “Oscar Diggs, o mágico de Oz”. É... a dramaturgia da loucura furiosa trouxe a normalidade da paz e da harmonia reais ao nosso povoado. Graças a Deus, até hoje não encontrei mais nenhum carro estacionado à entrada de minha garagem. A consciência humana é mais! A poesia é mais! E que as bruxas expulsas de Oz não retornem tão cedo.