quarta-feira, 10 de junho de 2015

QUEM É ELA QUE...


Quem é ela que me faz observar constantemente o meu único meio de comunicação imediato que me acorrenta numa caverna, deixando–me ver somente as sombras que escondem a verdade e a alegria. As sombras me fazem acreditar numa realidade falsa e limitam meu mundo limitado, fazendo com que eu perca a percepção dos sentidos, a noção do tempo e espaço causada pelo meu único meio de comunicação. Este anula minha possibilidade de conhecer através dos sentimentos, causando–me erroneamente a falsa sensação de ser mais humano. Essa é a realidade virtual que me junta a ela matematicamente.

Pergunto–me o que pode estar acontecendo. Estará ela ocupada fora ou dentro de sua morada. Familiares à sua espreita ensejando sua comunicação. Íntimos a comunicarem–se com ela. Sua consciência espera seu espírito se espreguiçar num momento tranquilo, de paz, amor ou cansaço para retomar a batalha. A consciência é forte, sua tutora não deseja mais esse laço, capricho seu ou dela. Mente para quem mais gosta, a quem concebeu seu corpo unido pelo seu espírito e mente. Por isso o corpo deve explicações; a mente diz que é o certo, e o espírito sabe o que realmente é correto.

Mas quem é ela que tudo toca e às vistas de outros vira ouro. Será que recebeu o dom dado ao rei Midas? Não! As coisas não se tornam ouro porque ela as tocou. Somente para as pessoas que a observam.

Mas quem é ela que induz os outros quererem o obtido e conquista. A ela essas coisas não passam apenas de mero acaso do seu esforço. Que poder tem de atrair o desejo das pessoas para suas coisas.

Quem é ela que nenhum irmão quis adotá–la. Nenhum irmão puxou–lhe o cabelo, arrancou a cabeça de sua boneca. Não brigou na rua para defender um fratello. Ao reencarnar voltou como morgada. Os pais de seu pai não tomaram conta dela à noite, quando seus genitores saíram. Os pais de sua mãe não a paparicaram, quando os chamou de avós. Não comeu do bolo da sua vovó no Domingo de Páscoa. Seu vovô não a chamou para almoçar no momento que estava brincando na rua. No Natal, sua família – avós, tios, primos e pais – não se abraçou nem ceou junta.

Quem é ela que é tão simples, ato humilde. Desprovida de tantos sentimentos afetivos. Não teve o conforto do seio familiar. É feliz, mas não é completa. Tantas pessoas têm o que almeja e inveja, mas o valor que ela conhece não é dado. Irmãos que brigam por tudo, e ela, ali, querendo um para compreender e amar. “- Como Deus foi injusto comigo”, ela diz. Tem apenas o que pode conquistar, que acaba com pouco valor julgado por ela mesmo, e eu sou algo conquistado. Mas as pessoas invejam o que ela pode conquistar. É o que elas almejam ter. São íntimas, são próximas. Nem todo sorriso e abraço são sinceros. Inconscientemente, as pessoas podem desejar o fracasso; não o mal de outras.

Quem é ela que deseja acariciar mais as pessoas postas por Deus em seu caminho do que ser acariciada por elas. Que almeja amar para ser amada do que ter poder para ser bajulada. Que ama e dá valor ao que não tem por ser consciente disto. Suas vitórias são invejadas por muitos. Um pouco de sofrimento seu ajuda a aliviar a inveja de outros. Mas que essas pessoas nada consigam contra ela. Que se tornem o eco de suas palavras.

Mesmo sabendo disso tudo, quem é ela que se demonstra outra a cada dia que a vejo. Essa mulher nada faz sem que a graça a acompanhe.


(Primeiros Momentos, 2001)