terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Conto de um samba líquido


Começo pela véspera atemporal dessa história.
Samba. Sempre gostei de samba. É... Sempre? Bem, não é bem assim. Sempre é um tempo constante sem início nem fim. Esse tempo começa quando não lembramos o início. Tempo suspenso na recordação. O que importa é a certeza da ancestralidade desse gosto em mim. Agora, a título de recorte dentro da constante atualidade do tempo, essa influência desinfluente pode ser datada no final da década de 1980. Antes de sair para o trabalho, minha mãe deixava o rádio ligado na Rádio Tropical. SÓ TOCAVA SAMBA independente do subgênero. Mas um estilo me tocava mais: o tal do pagode chamado de “raiz”. Do menos rebuscado aos mais conceituados. E digo uma coisa: o samba mais comercial dessa época ainda é melhor do que os “populares” das décadas seguintes. Comecei a memorizar os nomes e os sambas de bambas antigos e atuais. E não cito nenhum nome, pois “malandro” não se compromete, só “mané” não se toca. Outro tipo de samba é o de enredo, o qual tem me apetecido menos por suas questões mercadológicas.
No Rio do qual sou posse, apreciamos escola de samba de coração como time de futebol. Pelo menos era a visão que eu, criança, tinha do mundo naquela época. Como num passe de mágica, me descobri Beija-Flor de Nilópolis. A pequena ave que baila estática no ar. Esse sentimento me ficou bastante sensível à pele a partir de 1989. Com um enredo sociocrítico, “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”, a escola Nilopolitana ficara em segundo lugar. Festejei muito esse enredo e os “Todo mundo nu” (1990) e “Araxá, lugar alto onde primeiro se avista o sol” (1999), dividido com “Chico da Mangueira”, também belo. Em 1998, foi a primeira vez que pisei o chão da Deusa da Passarela. Uma quarta-feira chuvosa. Pensava em me “esbaldar” de cerva! Pura ilusão. Tomei um balde de gelo (outro problema, “gelo” lembra cerveja). Bem, bebi nada além de chuva! Como a diretoria não contava com o título, não teve gelo pra galera. E eu estava duro que nem um coco, possuindo apenas o dinheiro da passagem de ida, contando com a sorte do “calote” na volta de ônibus. E o único líquido que absorvi foi chuva. Porém, o paraíso hospitaleiro da quadra superlotada foi maravilhoso.
Indo para o tempo cronológico dessa história.
Sexta-feira, noite abafada. Último dia da semana de viagens geográficas a serviço do ensino em torno da língua portuguesa. A semana inteira, desde segunda, aula aqui, aula ali, aula acolá, aula alhures. Imagine o cansaço, sensação de alívio e depois aquele chope gelado. Colégio Alfa, final de expediente. Intervalo anterior aos dois últimos tempos de aula na turma de Pré-vestibular. Literatura. Momento sagrado de breve descanso. Na sala dos docentes, repousava com cafezinho e biscoito o historiador Lázaro, que de Ramos nada tinha, era mais para Bonsucesso, ou melhor, Lázaro de Austin e adjacências baixadianas. Nesse momento de paz e esparramado no sofá, surgiu o convite para integrar uma parceria na disputa do samba enredo da escola Inocentes de Belford Roxo. Confesso que fiquei feliz, ansioso e intrigado. Lázaro já conhecia meu gosto, conhecimento e pesquisas sobre samba, mas não tinha essa canja para o de enredo. Como ele queria terminar a letra do samba, que teve sua primeira parte composta por Diamante, parceiro que conheceria no domingo, marcamos de beber depois da aula. Na saída, fomos para o Bistrô Brasil do Marcelo Negão, onde a especialidade era o cremoso chopp encantador de poesias.
No Bistrô Conexão Brasil, Lázaro me apresenta o professor Zé Totonho, integrante da parceria. Lá conversamos sobre as estratégias dos integrantes da parceria, dos valores a serem investidos, do dindim que a escola poderia pagar aos vencedores e, principalmente, na alegria da concorrência. “Água pra prover a vida” era o enredo. E, obviamente, numa conversa sobre samba, só chope para saciar a sede. No bar também estavam mais quatro amigos, os quais libertinamente convidei para beberem juntos e integrarem a parceria. Mas não aceitaram. Paulinho José estava duro e sairia nas cuícas da Portela; Hilário estava numa parceria na Vila Isabel; Bira da Vila caçava patrocínio para o cd “Canto da Baixada”; e Flavinho Neguinho tinha de se dedicar ao Casarti (Casa do Artista Independente). Beberam um chope conosco e saíram para sei lá no mundo.
Na quinta caldereta de chope, o calor noturno ainda era intenso, as gargantas sedentas, as canetas afiadas e os papéis, antes pálidos, agora rabiscados. Zé Totonho fala sobre o primeiro samba: “Pelo telefone” (1916), de Donga. Foi minha deixa, eu já tinha escutado Nelson Sargento e Monarco (bibliotecas vivas), em momentos diferentes, dizerem que a galera do Estácio já “batia” um “samba de partido alto” diferente do “Pelo telefone”, embora seja o primeiro do gênero a ganhar certidão de nascimento. Além disso, já tinha lido referências sobre o samba em obras literárias, como em Os Sertões, de Euclides da Cunha, e obras do renomado pesquisador Nei Lopes. Logo, minha bagagem de leitura era uma mala sem alça.
Na décima caldereta de Brahma bebida, o garçom perguntava: “Mais três Chopes?” E respondíamos dando ok, levantando a taça e cantando Orlando Silva: “Chopp da Brahma é o primeiro / Chopp da Brahma é o primeiro / De garrafa ou de barril”. E concordávamos que o de barril era melhor do que o de garrafa. Agora o assunto era mais humorístico independente da seriedade do mesmo. Nesse momento “poetílico”, já tínhamos escrito o restante da letra do samba.
Entretanto, lá pela décima sexta caldereta, e de um tempo fora do relógio, ocorre um caso inusitado, uma insanidade etílica, diria. Não foi o pedido de um exótico tira-gosto, mas uma declaração do Lázaro. Nessa hora, Dudu, sócio no Bistrô, já ria de orelha a orelha. Como o show no telão acabara, o garçom fora trocá-lo. Mas perceba o quilate da responsa! Era um dvd que eu tinha levado com músicas cantadas por Candeia, Aniceto do Império, Cartola, João Nogueira, Nelson Cavaquinho, Zé Keti, Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Monarco, Nei Lopes, Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Reinaldo, Dunga, Toninho Gerais, Camunguelo, Leci Brandão, Bira da Vila etc etc e tal. A última música tocada tinha sido do menestrel Luiz Carlos da Vila, cantando “O sonho não acabou” (A chama não se apagou nem se apagará / És luz de eterno fulgor, Candeia / O tempo que o samba viveu / O sonho não vai acabar / E ninguém irá esquecer Candeia). Beleza até então. O novo dvd já estava tocando. Não percebemos bem do que se tratava, a conversa estava animada. É nesse momento que Lázaro vira para gente e aponta o telão onde era exibido o show. “Isso é que é pagode de raiz!” Não decifrei bem o que tocava. Mas, curiosamente, eu e Zé olhamos para o telão. Era exibido um show do grupo Jeito Moleque. Era a deixa... ou a gota que faltava. “Dudu, a conta! Já bebemos demais por hoje! A poética já está comprometida!”. Rimos muito, e nosso amigo pediu desculpas pela possessão de espírito sem luz que o fez proferir tal afirmação doidivanas.
Domingo, nove dias depois, ansiedade no tato, caipirinha no paladar e Samba Social Clube na audição. Era o dia de conhecer a quadra da escola, os outros parceiros e os possíveis adversários. Era o início dos estratagemas e da letra campeã. As apresentações dos sambas concorrentes seriam a partir das 20h, marcamos às 19h, e eu cheguei às 18h30. O ponto de encontro seria o quiosque do Biricutico, que ficava em frente à quadra. Botei o endereço no GPS e pronto. “Aqui é o quiosque do seu Biricutico? Por favor, uma cerva bem gelada!” “Deixa que eu levo na mesa!” Sentei à mesa e esperei os comparsas. Havia pouca movimentação na rua e ao redor da quadra. Vi, no máximo, protestantes indo, provavelmente, para suas igrejas. A praça era de um ambiente mal iluminado no lusco-fusco fronteiriço do início da noite. Além dos transeuntes evangélicos, poucas pessoas eram circunvizinhas ao quiosque.
Enquanto aguardava os amigos, vi personalidades um tanto caricatas nos outros botecos próximos e na fila da bilheteria da escola de samba. Pensei comigo: Se a galera que veio curtir e torcer é assim, não sei que festa vou encontrar por aqui. No trailer ao lado da quadra, sentado numa mesa estava um pai de santo de cabeleira estilo Lionel Richie. Ele vestia-se todo de branco, apoiava-se em uma bengala e usava anéis prateados em todos os dedos. Ele andava devagar e com dificuldade dramática. Mas que raios esse senhor alquebrado de quase dois metros de altura veio fazer aqui? Poderia ser um bicheiro, senão fossem o anel de búzios, o colar de Ogum e as quatro mulheres que o acompanhavam. Senhoras de ojás coloridos na cabeça. Duas delas andavam com dificuldade de tão obesas. A outra que também me chamou atenção foi a mais magra delas, que, a olhos nu, deveria pesar uns 40 quilos sobre as muletas em que se debruçava. Não sei quem pesava mais: as muletas ou a senhora. E a quarta era a mais velha de colar marrom, uma vovó de guelê branco na cabeça, que, além de cobrir os também brancos cabelos, usava um pano da costa ora usado como echarpe. No Rato Pelado (estava escrito na propaganda em cima do bar), estavam já lotadas as mesas em questão de 15 minutos após minha chegada. E eram pessoas de porte físico bem robusto ou bem magras, mal encaradas, algumas barrigudas, mulheres de shortinhos apertados e curtos, gays, a maioria negra. E falavam alto, aliás, gritavam afetuosamente entre eles. E tomam engradados e engradados de cerveja. Sozinho e tímido, comecei a me sentir amuado, meio amedrontado, pois as pessoas não pareciam receptivas. E o calor? Putz! “Seu Biricutico, mais uma, por favor”. Enfim, 19h em ponto, chegou a parceria: Lázaro, Zé Totonho, Diamante, Alê Boladão e Figueiroa. Pelas alcunhas, só gente de bem. Os outros não puderam vir. Pedimos mais duas cervejas. Lázaro me apesenta aos demais e ensaiamos o samba. Afinados, entramos na quadra. Eu, o estranho no ninho da “pomba da paz”.
Adentramos a quadra. Havia um número ínfimo ao que se espera num dia de apresentação de sambas. Poucas mesas preenchidas. Empolgação zero. Poxa, já eram 20 horas. Enfim... um balde de gelo! Vamos beber e esperar. Lá pelas 21h a bateria iniciou os trabalhos. E eu só pensava que teria de levantar antes do galo cantar na segunda para ir lecionar. Confesso que não estava mais empolgado. As pessoas estavam apáticas, cabisbaixas, moribundas, sem água ou refrigerante ou cerveja (!!!) em suas mesas. Eu olhava para mesa daquele pai de santo e sua família sentados num tédio ancestral. Eu pensava: o que vim fazer nesse lugar? As pessoas deveriam ser torcedoras da Beija-flor, Grande Rio, Portela, Mangueira, GRES Quilombo ou Unidos da Ponte, menos da Inocentes. Só pode ser. Dominado pelo transe das conversas de meus amigos, não dei conta do quanto a quadra foi sendo tomada por um mundaréu de gente. Como não me recordava de ter visto fileiras cheias, achava que a quadra permaneceria às moscas. Contudo, uma transformação.
A bateria que rufava fervorosamente funcionou como os tambores que vão buscar quem mora longe. E foi contagiante ouvir o samba em homenagem a Leonel Brizola: “Canta cidade do amor / do coração Inocentes / pra saudar o rei do povo / faz a alegria dessa gente”. E as pessoas entraram em transe mediúnico. Começaram a sambar e cantar inebriadas como se fossem a própria pomba da paz, símbolo da escola. Uns davam puladinhos de bode, como diria Candeia, outros pareciam enceradeiras com suas pernas alucinadas. As passistas pareciam sininhos voando no chão de pirlimpimpim. Belas, sensuais e do samba! A inveja escorria pelas retinas por desejar ter as pernas elétricas de 220 volts dos passistas, embora eu verdadeiramente prefira um miudinho de velha guarda. Depois entoaram o samba em homenagem a Ossanhin, a divindade botânica detentora da cura advinda pelas folhas: “O meu coração é Inocentes / de Belford eu sou feliz / o corpo são conduz a mente / eu sigo em frente vou na força da raiz.” Se a cura não veio da floresta, ao menos veio pela samba. O pai de santo alquebrado, que andava com dificuldade e apoiado em uma bengala, sambava com vigor e maestria de um Delegado da vida. Mas como assim? O suor escorria-lhe do rosto com alegria e era absorvido pela toalhinha branca que descansava dependurada no ombro. E as suas filhas de santo. As duas senhoras gordas dançavam com a leveza e o brilho de plumas e paetês. A de muletas parecia uma porta-bandeira em mavioso glamour. E a vovozinha mocotona? Ela sambava e cantava como as antigas pastoras do tempo áureo dos ontológicos sambas. Onde estavam as pessoas "excêntricas" que me intimidaram no início? No mesmo lugar. Agora tudo me era familiar, eu era apaixonadamente um deles. Antes idiota à Dostoiésvki, depois sambista à  Paulo da Portela. O samba tem o poder de mudar pontos de vista, de suprimir o prefixo do preconceito, de desconstruir identidades cristalizadas, de permitir alguém trocar sua medula óssea cultural. O samba me favorece a olhar para mim mesmo a partir do outro, refletindo sobre os meus privilégios sociais.
As parcerias foram apresentadas, e os sambas começaram a ser entoados. Nossa música ficou por última. Nos dois meses consecutivos de concorrências, não havia samba mais cantado como o nosso. Nossa letra era forte e promissora. Ficamos entre os três finalistas, sendo o mais apoiado pelos funcionários da escola, bares vizinhos à quadra e os descompromissados com as três parcerias finalistas. Mas a verba que conseguíamos angariar não era suficiente para levar uma torcida maior à quadra. Qualidade latente, mas pecávamos na quantidade. Também não tínhamos o apoio da diretoria nem da presidência, que cantarolava a letra de uma das concorrentes. Nem queríamos apoio de uma direção que, em reuniões semanais, ridicularizava a produção poética dos compositores da escola como se, por morarem em uma localidade da Baixada Fluminense abandonada pelo poder público (que não investe em saúde, em segurança e em educação), não tivessem condições intelectuais. Pobres, pretos, favelados, putas, gays, macumbeiros? Querida diretoria, Cartola e Dona Ivone Lara, baluartes do samba, são exemplos de negros de origem humilde e moradores do morro, e isso não os impediu de grandes construções poéticas. As mãos das “minorias” não se ridicularizam, mas a inferiorização de suas estruturas é reforçada pelas mãos dos privilegiados que tudo levam, lembrando o pagode "mãos", de Carlos Senna e Almir Guineto (a versão com Mano Brown é linda!). Estruturas sociais privilegiadas (ainda que tenham nojinho) apropriam-se da “asquerosa” produção cultural do povo. Transformam-na em proveito próprio. Depois revendem-na ao povo para que o mesmo pague pelo “belo produto final”. Os pobres produzem, as estruturas de poder tomam, regularizam e vendem da forma mais conveniente de usufruo. O objetivo desse simulacro é manter os desfavoráveis no seu devido lugar social de dominação. Assim, elas se reproduzem vigorosas e se perpetuam no poder. Como num estratagema preponderante para vitória em tempos de guerra, os outros dois sambas foram fundidos. Logo, creio que ficamos em segundo lugar. O saldo foi positivo.
Porém, ah, porém... quando subimos o palco, uma forte sensação estranha tomou conta do meu espírito. Misto de medo, de choro contido, de nervosismo, de ansiedade, de paixão, de representatividade. E aquela multidão esperando, observando, inquisidores ou não, uns gritando, ovacionando, sambando. E o coro popular encorpando nosso refrão: “Água pra saciar a sede / Água pra prover a vida / A Inocentes hoje conta com você / vamos juntos defender / nosso planeta azul nessa avenida”. Foram muitos encontros, amizades construídas, esperanças e respeitos compartilhados. O anúncio do segundo lugar, o choro solto e frouxo. Mas a alegria do dever realizado, da brincadeira, do esforço desprendido, da amizade e dos amores abraçados na efusão de lágrimas, de suores e de cerveja. E haja água para saciar nossa sede de vida. Água não para purificar, lavar ou limpar no resgate de essência ou pureza, mas no sentido de renovação, de transformação, de ancestralidade.